Cinco perguntas para nortear meus esforços nesta vida:
Por que e como existe algo ao invés do nada?
Como a vida surgiu na Terra?
Quão frequente é a vida no Cosmos?
Como criar e manter uma sociedade livre, justa e feliz?
Nós nunca vamos aprender?
A ordem não é significativa. E a minha vida é uma só.
22 de maio de 2009
3 de maio de 2009
20 de abril de 2009
Imagine
Será que as pessoas nunca pararam pra prestar atenção na letra de Imagine, do John Lennon? Aquilo é heresia pura! Se eu fosse um governante ou um líder religioso, eu suaria frio ao ouvir qualquer menção a esse mundo idílico.
Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nem inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje
Imagine que não haver nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só
Imagine que não haver posses
Eu me pergunto se você consegue
Sem a necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens
Imagine todas as pessoas
Partilhando todo o mundo
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo será como um só
E que bom que eu não sou um governante e/ou um líder religioso (às vezes as coisas andam juntas, o que é pior ainda). Não sei se minha consciência me deixaria dormir à noite!
Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nem inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje
Imagine que não haver nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só
Imagine que não haver posses
Eu me pergunto se você consegue
Sem a necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens
Imagine todas as pessoas
Partilhando todo o mundo
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo será como um só
E que bom que eu não sou um governante e/ou um líder religioso (às vezes as coisas andam juntas, o que é pior ainda). Não sei se minha consciência me deixaria dormir à noite!
17 de abril de 2009
Gênesis
Eu sou ateu. Isto é, não creio ou não tenho fé em Deus ou deuses. As justificativas para essa posição se baseiam todas na ausência de provas da existência de algo sobrenatural, extra-físico, divino. Alguém poderia argumentar que eu também não posso provar que deus(es) não existe(m), e eu responderia que, ainda assim, não vejo por que eu deva crer em deus(es). Tipicamente, o ateu retruca dizendo "também não posso provar que o Papai Noel não existe, mas isso não me impele a crer no bom velhinho, assim como você não acredita". O mesmo pode ser dito do coelhinho da Páscoa, do ET de Varginha, de unicórnios, dragões, super-heróis, etc. A questão é simples: sem prova, sem crença. Mas será mesmo certo afirmar que não existe nenhuma prova da existência de Deus?
Há muitas supostas provas de que deus(es) existe(m). A grande maioria, no mínimo — eu diria todas —, não consegue passar pelo escrutínio da lógica ou dos fatos. Exemplifico:
a) Todas as civilizações desenvolveram crenças em Deus ou deuses. Existem pesquisas que mostram que ter fé aumenta as chances de cura de um paciente. Existe uma região do cérebro que, quando estimulada, geralmente provoca sentimentos religiosos¹.
Logo, Deus existe.
b) A vida existe no planeta Terra.
A vida não pode surgir sozinha.
Então a vida foi criada.
Logo, Deus existe, pois criou a vida.
No primeiro caso, temos exemplos do que é chamado de non sequitur, ou seja, a conclusão não se segue necessariamente da premissa, do fato inicial. É possível que todas as civilizações tenham desenvolvido uma crença em algo que não existe, por exemplo, até porque deuses são um conforto psicológico em momentos difíceis e uma explicação para o desconhecido. Coisas universais.
O segundo caso é diferente. Uma das premissas é que a vida não pode surgir sozinha, o que não é comprovado e vai contra algumas evidências da ciência atual. Analisando o cosmos, percebemos que a matéria orgânica, que compõe os seres vivos que conhecemos, é abundante. Sabemos que existem seres que conseguem viver em ambientes extremos, com temperaturas de até 100°C, pHs que variam de 2 a 12 (muito ácido e muito básico), e pressões muito altas: as bactérias extremófilas.
Mas a maior evidência para o surgimento autônomo da vida são experiências como a de Urey-Miller. Esses cientistas, em 1952, tentaram recriar o ambiente terrestre de 3 bilhões de anos atrás, quando havia muita amônia, gás hidrogênio, gás metano e água. Misturando esses compostos e incidindo raios elétricos neles, como ocorria em larga escala na Terra primitiva, eles foram capazes de criar vários aminoácidos, material que forma as proteínas, que por sua vez formam todas as formas de vida que conhecemos. Bastaria surgir um replicador, algo que criasse mecanicamente cópias de si mesmo, para surgir a vida primitiva que evoluiria e poderia chegar a níveis de complexidade como o nosso ou maiores. A experiência vem sendo refeita e melhorada até os dias atuais, com resultados parecidos. E nada disso precisa de um deus.
O que dizer, porém, de tal argumento:
c) O Universo existe.
Se algo existe, então foi criado ou sempre existiu.
Sempre ter existido não é algo coerente.
Logo, Deus existe e criou o Universo.
O Universo de fato existe. Parece certo que tudo que existe precisa ou ter sido criado, ou sempre ter existido. Mas como pode algo existir desde sempre? Se tivesse surgido em algum momento, teria sido criado. E existir sem nunca ter surgido não parece uma alternativa lógica. Nesse momento o teísta ri satisfeito e diz: "Aí está a prova de que Deus existe. Precisamos de Deus para explicar por que existe algo ao invés do nada."
O ateu, como que em desespero, lança um contra-argumento raso: "Se Deus criou o Universo, quem criou Deus? E se Deus não precisa ter sido criado, por que o Universo precisa?" Tudo bem. Então Deus não explica a questão. Tampouco o ateu a explica. Voltamos à estaca zero.
Por que existe algo? Como existe alguma coisa?
A física moderna nos dá certas indicações, mas nenhuma resposta concreta. Precisamos lembrar que a ciência está sempre buscando as respostas, mas nunca terá verdades definitivas. Ela é intrinsicamente mutante, pois surgem novos dados e novas teorias. Sua merecida credibilidade vem da sua capacidade de perceber o próprio erro ou simplificação e de se consertar para chegar mais perto da verdade. O que ela diz?
O Universo teria surgido com o Big Bang, há cerca de 14 bilhões de anos. Toda a matéria estava em um só ponto e começou a se expandir. O tempo não existia antes do Big Bang, ele surgiu junto com a explosão. Perguntar o que havia antes disso é perguntar o que tem ao norte do pólo norte, disse certa vez o físico Stephen Hawking.
Porém, como surgiu aquele pontinho com matéria no instante do Big Bang? Existem especulações: esse pode ser só um dos muitos ou infinitos Universos existentes; ou a gravidade reuniu toda a matéria do Universo passado e houve este Big Bang, um de infinitos; entre outras, que podem exigir um conhecimento maior de física e matemática. Nada, porém, explica como pode existir algo ao invés do nada.
E agora? Me permitam uma digressão. Primeiro para 1543, quando Copérnico publicou um livro onde defendia que a Terra não era o centro do Universo, e sim o Sol, ideia que contrariava a visão religiosa e altamente antropocêntrica da época. Um grande tapa na presunção humana. Não seria o primeiro que a ciência nos deu. Também Darwin, quando publicou "A origem das espécies" há 150 anos, nos trouxe a humildade de entender que não somos seres especiais criados por uma divindade, destinados a controlar todos os outros. Somos só outro macaco sentado num galho da árvore da vida.
Aumentando nosso conhecimento, acabamos sendo forçados a aumentar nossa sabedoria. Aparentemente, os fatos não se preocupam muito com nosso ego. Cito essas coisas para levantar uma outra hipótese no caso da existência do Universo, ou da existência de alguma coisa. Uma ideia razoavelmente antiga que meu amigo Rafael chamou de hipótese arracional. "A" é um prefixo grego que exprime negação. Não-racional é diferente de irracional, pois o irracional contraria a razão. O arracional está além dela. A argumentação é mais ou menos assim:
Se o ser humano evoluiu através da seleção natural e se nossa capacidade mental for fruto do nosso sistema nervoso, não de uma alma — seja lá o que isso for —, também nossa mente evoluiu pelo método darwinista. Assim como nossos dentes não são capazes de triturar aço, mas davam conta do serviço nas condições-padrão da nossa vida evolutiva, também nossa mente — com todas as suas funções, incluindo a análise do que é racional, do que faz sentido — só foi até o necessário: analisar e entender as condições-padrão da nossa vida evolutiva. Talvez nossa racionalidade seja simplesmente rasa demais, talvez nossa mente não tenha a capacidade de julgar o que pode ou não acontecer em situações extremas ou simplesmente em situações fora do usual, entre elas o surgimento ou a existência do Universo. Nem ter sido criado, nem ter sempre existido, mas algo arracional, uma resposta alternativa. Como enxergar mais que nossas três dimensões usuais, algo simplesmente além da compreensão da mente do famigerado Homo sapiens. Não vai fazer sentido e pronto.
Assim como foi com o heliocentrismo e o darwinismo, é difícil aceitar isso. Parece nos roubar de algo que tanto prezávamos: nossa razão. Porém, vale ressaltar que, sendo nossa mente assim falha ou não, quando o objetivo é buscar a verdade, não há por que abandonar a racionalidade. Se a razão não pode nos levar à Verdade absoluta, ela certamente é quem pode nos aproximar mais dela. Toda nossa ciência é testemunha disso. Quem a fé pode chamar pra depôr?
¹: quem se interessou por isso, pode pesquisar por Michael Persinger ou estimulação transcraniana.
Como o pensamento ocorre com as sinapses do cérebro, ou seja, pequenas descargas elétricas entre os neurônios, e como as áreas do cérebro são razoavelmente especializadas em diferentes funções, é possível estimular áreas do cérebro com campos magnéticos bem colocados e analisar sua(s) função(ões). É quase como se houvesse uma área ligada ao pensamento religioso, embora o lobo temporal esquerdo tenha várias outras funções e a religiosidade não se manifeste em todas as pessoas.
Há muitas supostas provas de que deus(es) existe(m). A grande maioria, no mínimo — eu diria todas —, não consegue passar pelo escrutínio da lógica ou dos fatos. Exemplifico:
a) Todas as civilizações desenvolveram crenças em Deus ou deuses. Existem pesquisas que mostram que ter fé aumenta as chances de cura de um paciente. Existe uma região do cérebro que, quando estimulada, geralmente provoca sentimentos religiosos¹.
Logo, Deus existe.
b) A vida existe no planeta Terra.
A vida não pode surgir sozinha.
Então a vida foi criada.
Logo, Deus existe, pois criou a vida.
No primeiro caso, temos exemplos do que é chamado de non sequitur, ou seja, a conclusão não se segue necessariamente da premissa, do fato inicial. É possível que todas as civilizações tenham desenvolvido uma crença em algo que não existe, por exemplo, até porque deuses são um conforto psicológico em momentos difíceis e uma explicação para o desconhecido. Coisas universais.
O segundo caso é diferente. Uma das premissas é que a vida não pode surgir sozinha, o que não é comprovado e vai contra algumas evidências da ciência atual. Analisando o cosmos, percebemos que a matéria orgânica, que compõe os seres vivos que conhecemos, é abundante. Sabemos que existem seres que conseguem viver em ambientes extremos, com temperaturas de até 100°C, pHs que variam de 2 a 12 (muito ácido e muito básico), e pressões muito altas: as bactérias extremófilas.
Mas a maior evidência para o surgimento autônomo da vida são experiências como a de Urey-Miller. Esses cientistas, em 1952, tentaram recriar o ambiente terrestre de 3 bilhões de anos atrás, quando havia muita amônia, gás hidrogênio, gás metano e água. Misturando esses compostos e incidindo raios elétricos neles, como ocorria em larga escala na Terra primitiva, eles foram capazes de criar vários aminoácidos, material que forma as proteínas, que por sua vez formam todas as formas de vida que conhecemos. Bastaria surgir um replicador, algo que criasse mecanicamente cópias de si mesmo, para surgir a vida primitiva que evoluiria e poderia chegar a níveis de complexidade como o nosso ou maiores. A experiência vem sendo refeita e melhorada até os dias atuais, com resultados parecidos. E nada disso precisa de um deus.
O que dizer, porém, de tal argumento:
c) O Universo existe.
Se algo existe, então foi criado ou sempre existiu.
Sempre ter existido não é algo coerente.
Logo, Deus existe e criou o Universo.
O Universo de fato existe. Parece certo que tudo que existe precisa ou ter sido criado, ou sempre ter existido. Mas como pode algo existir desde sempre? Se tivesse surgido em algum momento, teria sido criado. E existir sem nunca ter surgido não parece uma alternativa lógica. Nesse momento o teísta ri satisfeito e diz: "Aí está a prova de que Deus existe. Precisamos de Deus para explicar por que existe algo ao invés do nada."
O ateu, como que em desespero, lança um contra-argumento raso: "Se Deus criou o Universo, quem criou Deus? E se Deus não precisa ter sido criado, por que o Universo precisa?" Tudo bem. Então Deus não explica a questão. Tampouco o ateu a explica. Voltamos à estaca zero.
Por que existe algo? Como existe alguma coisa?
A física moderna nos dá certas indicações, mas nenhuma resposta concreta. Precisamos lembrar que a ciência está sempre buscando as respostas, mas nunca terá verdades definitivas. Ela é intrinsicamente mutante, pois surgem novos dados e novas teorias. Sua merecida credibilidade vem da sua capacidade de perceber o próprio erro ou simplificação e de se consertar para chegar mais perto da verdade. O que ela diz?
O Universo teria surgido com o Big Bang, há cerca de 14 bilhões de anos. Toda a matéria estava em um só ponto e começou a se expandir. O tempo não existia antes do Big Bang, ele surgiu junto com a explosão. Perguntar o que havia antes disso é perguntar o que tem ao norte do pólo norte, disse certa vez o físico Stephen Hawking.
Porém, como surgiu aquele pontinho com matéria no instante do Big Bang? Existem especulações: esse pode ser só um dos muitos ou infinitos Universos existentes; ou a gravidade reuniu toda a matéria do Universo passado e houve este Big Bang, um de infinitos; entre outras, que podem exigir um conhecimento maior de física e matemática. Nada, porém, explica como pode existir algo ao invés do nada.
E agora? Me permitam uma digressão. Primeiro para 1543, quando Copérnico publicou um livro onde defendia que a Terra não era o centro do Universo, e sim o Sol, ideia que contrariava a visão religiosa e altamente antropocêntrica da época. Um grande tapa na presunção humana. Não seria o primeiro que a ciência nos deu. Também Darwin, quando publicou "A origem das espécies" há 150 anos, nos trouxe a humildade de entender que não somos seres especiais criados por uma divindade, destinados a controlar todos os outros. Somos só outro macaco sentado num galho da árvore da vida.
Aumentando nosso conhecimento, acabamos sendo forçados a aumentar nossa sabedoria. Aparentemente, os fatos não se preocupam muito com nosso ego. Cito essas coisas para levantar uma outra hipótese no caso da existência do Universo, ou da existência de alguma coisa. Uma ideia razoavelmente antiga que meu amigo Rafael chamou de hipótese arracional. "A" é um prefixo grego que exprime negação. Não-racional é diferente de irracional, pois o irracional contraria a razão. O arracional está além dela. A argumentação é mais ou menos assim:
Se o ser humano evoluiu através da seleção natural e se nossa capacidade mental for fruto do nosso sistema nervoso, não de uma alma — seja lá o que isso for —, também nossa mente evoluiu pelo método darwinista. Assim como nossos dentes não são capazes de triturar aço, mas davam conta do serviço nas condições-padrão da nossa vida evolutiva, também nossa mente — com todas as suas funções, incluindo a análise do que é racional, do que faz sentido — só foi até o necessário: analisar e entender as condições-padrão da nossa vida evolutiva. Talvez nossa racionalidade seja simplesmente rasa demais, talvez nossa mente não tenha a capacidade de julgar o que pode ou não acontecer em situações extremas ou simplesmente em situações fora do usual, entre elas o surgimento ou a existência do Universo. Nem ter sido criado, nem ter sempre existido, mas algo arracional, uma resposta alternativa. Como enxergar mais que nossas três dimensões usuais, algo simplesmente além da compreensão da mente do famigerado Homo sapiens. Não vai fazer sentido e pronto.
Assim como foi com o heliocentrismo e o darwinismo, é difícil aceitar isso. Parece nos roubar de algo que tanto prezávamos: nossa razão. Porém, vale ressaltar que, sendo nossa mente assim falha ou não, quando o objetivo é buscar a verdade, não há por que abandonar a racionalidade. Se a razão não pode nos levar à Verdade absoluta, ela certamente é quem pode nos aproximar mais dela. Toda nossa ciência é testemunha disso. Quem a fé pode chamar pra depôr?
¹: quem se interessou por isso, pode pesquisar por Michael Persinger ou estimulação transcraniana.
Como o pensamento ocorre com as sinapses do cérebro, ou seja, pequenas descargas elétricas entre os neurônios, e como as áreas do cérebro são razoavelmente especializadas em diferentes funções, é possível estimular áreas do cérebro com campos magnéticos bem colocados e analisar sua(s) função(ões). É quase como se houvesse uma área ligada ao pensamento religioso, embora o lobo temporal esquerdo tenha várias outras funções e a religiosidade não se manifeste em todas as pessoas.
30 de março de 2009
http://www.academicearth.org — Site que organiza as aulas diversas que universidades entre as mais conceituadas do mundo disponibilizam na internet gratuitamente, conforme já foi falado aqui nesse blog. Quer dizer, agora está mais fácil ainda.
20 de janeiro de 2009
A história é cíclica?
"Os Estados Unidos, por sua parte, com as pernas presas na armadilha das guerras no Sudeste Asiático, não ocultaram o mal-estar oficial ante a marcha dos acontecimentos no sul da cordilheira do Andes. No entanto, o Chile não está ao alcance de uma súbita expedição de marines e, afinal de contas, Allende era presidente com todos os requisitos da democracia representativa que o país do Norte formalmente prega. O imperialismo atravessa as primeiras etapas de um novo ciclo crítico, cujos signos se tornaram claros na economia; sua função de polícia mundial se faz cada vez mais cara e mais difícil". (Eduardo Galeano, no livro "As veias abertas da América Latina, publicado em 1971)
Não é só um texto introdutório, o trecho do livro é a parte central do meu texto. Prestem atenção: o livro foi publicado em 1971. Voltemos um pouco no tempo.
Fim da Segunda Guerra Mundial, 1945. Começa a chamada Guerra Fria, uma tentativa de divisão do mundo em duas zonas de influência pelas maiores potências da época, EUA e URSS, que em teoria apoiavam o capitalismo e o socialismo, respectivamente. Em teoria, porque a China se dizia socialista e estava ligada aos EUA, e estes guerrearam contra grupos nacionalistas no exterior em nome da ideologia americana, embora os inimigos não fossem socialistas. Também a URSS não era igualitária e livre como uma sociedade socialista devia ser. Enfim, divisão do mundo entre "países que não incomodam os interesses americanos" e "países que não incomodam os interesses soviéticos". A Guerra Fria se estendeu até 1991. Nos anos 60 e 70, ela estava no auge.
Início da Guerra do Vietnã, 1959. É a isso que Galeano se refere quando fala da "armadilha das guerras no Sudeste Asiático"; uma guerra complicada para os estadunidenses, embora eles tivessem tecnologia bélica muito superior. Em 1973, por força da opinião pública contrária à guerra e por pouca perspectiva de uma vitória a curto prazo, e depois de 50 mil soldados americanos mortos, os EUA saem da guerra. Em 1976, o Vietnã é unificado sob governo socialista.
Eleições presidenciais chilenas, 1970. A coalizão de esquerda Unidade Popular, com o candidato Salvador Allende, um médico marxista, vence. Dentro da América — no "quintal dos EUA", como se diz por lá e por aqui — outro governo socialista surge, depois de Cuba, em plena Guerra Fria.
Alguns meses atrás, eu fiz um post sobre a tendência de esquerda dos novos governos do nosso continente. Ela é muito parecida com a que estava acontecendo nos anos 60 e 70, até que os EUA ajudaram golpes de estado direitistas em boa parte dos países da América Latina, inclusive o golpe militar brasileiro. O livro do Galeano foi publicado nessa época: enquanto aconteciam os golpes.
Substituindo "guerras no Sudeste Asiático" por "guerras no Oriente Médio", "sul da cordilheira dos Andes" por "extremo norte da cordilheira dos Andes"¹, "Chile" e "Allende" por "Venezuela" e "Chavez", temos uma bela análise do panorama atual. E é mais ou menos o que se tem cogitado: se os EUA vão ter poder para continuar mexendo os pauzinhos na região, com toda a crise econômica e as guerras. Eu achava que não, que a nossa região estava aos poucos saindo das mãos americanas, que tanto exploraram nossas riquezas. Porém, encontro essa mesma previsão no livro, em 1971. Aconteceu que os EUA financiaram o golpe militar no Chile, Salvador Allende foi deposto, morreu² e começou a ditadura de Pinochet.
Parece que os ataques à democracia atrasaram o continente em algumas décadas e agora voltamos àquele mesmo ponto, com a esquerda assumindo o poder democraticamente. Resta saber, agora, se isso é só uma coincidência, se o mundo não é mais o mesmo e se, enfim, as coisas vão mudar. Ou a história é cíclica e, nesse caso, estamos fadados a esse papel subalterno no mundo? O continente exportador de matéria-prima a baixo preço, o "quintal" dos estadunidenses? Eduardo Galeando vai ficar errando e errando na sua previsão de autonomia latino-americana, ou só estava alguns anos à frente de seu tempo?
¹: Sim, a cordilheira dos Andes vai do Chile até a Venezuela, no extremo norte da América do Sul. Também fiquei surpreso...
²: Allende morreu dia 11 de setembro de 1973; não se sabe se foi suicídio ou se ele foi morto. Achou a data curiosa? Pois então, alguns dizem que Bin Laden atacou nesse dia para homenagear o inimigo estadunidense, eleito pelo povo e deposto pela força.
Não é só um texto introdutório, o trecho do livro é a parte central do meu texto. Prestem atenção: o livro foi publicado em 1971. Voltemos um pouco no tempo.
Fim da Segunda Guerra Mundial, 1945. Começa a chamada Guerra Fria, uma tentativa de divisão do mundo em duas zonas de influência pelas maiores potências da época, EUA e URSS, que em teoria apoiavam o capitalismo e o socialismo, respectivamente. Em teoria, porque a China se dizia socialista e estava ligada aos EUA, e estes guerrearam contra grupos nacionalistas no exterior em nome da ideologia americana, embora os inimigos não fossem socialistas. Também a URSS não era igualitária e livre como uma sociedade socialista devia ser. Enfim, divisão do mundo entre "países que não incomodam os interesses americanos" e "países que não incomodam os interesses soviéticos". A Guerra Fria se estendeu até 1991. Nos anos 60 e 70, ela estava no auge.
Início da Guerra do Vietnã, 1959. É a isso que Galeano se refere quando fala da "armadilha das guerras no Sudeste Asiático"; uma guerra complicada para os estadunidenses, embora eles tivessem tecnologia bélica muito superior. Em 1973, por força da opinião pública contrária à guerra e por pouca perspectiva de uma vitória a curto prazo, e depois de 50 mil soldados americanos mortos, os EUA saem da guerra. Em 1976, o Vietnã é unificado sob governo socialista.
Eleições presidenciais chilenas, 1970. A coalizão de esquerda Unidade Popular, com o candidato Salvador Allende, um médico marxista, vence. Dentro da América — no "quintal dos EUA", como se diz por lá e por aqui — outro governo socialista surge, depois de Cuba, em plena Guerra Fria.
Alguns meses atrás, eu fiz um post sobre a tendência de esquerda dos novos governos do nosso continente. Ela é muito parecida com a que estava acontecendo nos anos 60 e 70, até que os EUA ajudaram golpes de estado direitistas em boa parte dos países da América Latina, inclusive o golpe militar brasileiro. O livro do Galeano foi publicado nessa época: enquanto aconteciam os golpes.
Substituindo "guerras no Sudeste Asiático" por "guerras no Oriente Médio", "sul da cordilheira dos Andes" por "extremo norte da cordilheira dos Andes"¹, "Chile" e "Allende" por "Venezuela" e "Chavez", temos uma bela análise do panorama atual. E é mais ou menos o que se tem cogitado: se os EUA vão ter poder para continuar mexendo os pauzinhos na região, com toda a crise econômica e as guerras. Eu achava que não, que a nossa região estava aos poucos saindo das mãos americanas, que tanto exploraram nossas riquezas. Porém, encontro essa mesma previsão no livro, em 1971. Aconteceu que os EUA financiaram o golpe militar no Chile, Salvador Allende foi deposto, morreu² e começou a ditadura de Pinochet.
Parece que os ataques à democracia atrasaram o continente em algumas décadas e agora voltamos àquele mesmo ponto, com a esquerda assumindo o poder democraticamente. Resta saber, agora, se isso é só uma coincidência, se o mundo não é mais o mesmo e se, enfim, as coisas vão mudar. Ou a história é cíclica e, nesse caso, estamos fadados a esse papel subalterno no mundo? O continente exportador de matéria-prima a baixo preço, o "quintal" dos estadunidenses? Eduardo Galeando vai ficar errando e errando na sua previsão de autonomia latino-americana, ou só estava alguns anos à frente de seu tempo?
¹: Sim, a cordilheira dos Andes vai do Chile até a Venezuela, no extremo norte da América do Sul. Também fiquei surpreso...
²: Allende morreu dia 11 de setembro de 1973; não se sabe se foi suicídio ou se ele foi morto. Achou a data curiosa? Pois então, alguns dizem que Bin Laden atacou nesse dia para homenagear o inimigo estadunidense, eleito pelo povo e deposto pela força.
17 de dezembro de 2008
Nós, a poça d'água
"Imagine uma poça d'água acordando um dia e pensando, "Que mundo interessante este em que me encontro, um buraco interessante, ele me serve direitinho, não? Na verdade, ele me serve perfeitamente bem, só pode ter sido feito para me ter dentro dele!". E essa é uma idéia tão poderosa que, enquanto o sol nasce no céu e o ar se aquece e, gradualmente, a poça vai ficando menor e menor, ela ainda se agarra desesperadamente à noção de que tudo dará certo, porque o mundo foi criado para tê-la dentro dele; assim, o momento em que ela desaparece por completo a pega de surpresa.
Eu acho que isso é algo que nós devemos estar de olho". (Douglas Adams)
Eu espero que vocês vejam essa historinha divertida, criada pelo ótimo Douglas Adams (escritor da série Guia do Mochileiro das Galáxias), como um sério argumento. Um argumento contra a presunção humana, nosso antropocentrismo infundado. Não somos o centro do Universo, não somos uma criação divina, tudo bem. Mas vai mais longe: o que nós temos como certo pode estar longe da verdade, pois a mente humana é falha — e muito.
Uma maçã é gostosa? Talvez para nós, mas ela não é intrinsicamente gostosa. Nossa mente cria a percepção de que ela é gostosa porque ela pode nos ofecerer carboidratos e vitaminas. As flores nos parecem bonitas, mas não podemos dizer que isso é algo universal. Elas assim nos parecem porque a mente humana as considera bonitas. Talvez um jacaré as ignore por completo. Nossa mente foi desenvolvida pela seleção natural e criou mecanismos para que nós fizéssemos as coisas certas para a sobrevivência e procriação, e não que pudéssemos entender o mundo em sua inteireza. Nossa própria visão é apenas um trecho do espectro de freqüências da luz: certos animais vêem coisas que não aparecem aos nossos olhos. O mesmo se dá na audição.
Além disso, nos foi dado um senso de causalidade e finalidade. Os seres fazem certas coisas para atingir objetivos. Isso está na nossa percepção do mundo e está até na nossa linguagem: falamos sempre em termos de causalidade e finalidade, toda língua tem conjunções para isso. Até dizemos que as gorduras são hidrofóbicas (têm aversão a água). Ora, as gorduras não têm nada, pois não agem por vontade própria. Inventamos fábulas onde os objetos materias ganham vida e têm desejos. E inventamos deuses, à nossa imagem e semelhança. Eles têm raiva, têm inveja de que acreditemos em outros deuses, têm compaixão e listas de regras para nós obedecermos. Isso não soa um tanto... humano?
Por tudo isso, queremos que o mundo tenha sido criado com um objetivo, geralmente o de nós ter dentro dele. Assim como a poça d'água ignora a sua desimportância no universo, nós ignoramos a nossa. Além de achar que somos os reis da Terra, queremos achar que o Universo existe por alguma razão que pareça fazer sentido, quando talvez nem haja motivo; nós atribuímos motivos às coisas porque nossa mente foi moldada para isso, não porque essa é a lei do mundo. Nós só absorvemos o trechinho do mundo que nossos sentidos captam e nossa mente ajusta todos esses dados de um modo que foi favorável para os objetivos da nossa jornada evolutiva, não para que tivéssemos ciência e filosofia. Pense no big bang, pense na poça.
Eu acho que isso é algo que nós devemos estar de olho". (Douglas Adams)
Eu espero que vocês vejam essa historinha divertida, criada pelo ótimo Douglas Adams (escritor da série Guia do Mochileiro das Galáxias), como um sério argumento. Um argumento contra a presunção humana, nosso antropocentrismo infundado. Não somos o centro do Universo, não somos uma criação divina, tudo bem. Mas vai mais longe: o que nós temos como certo pode estar longe da verdade, pois a mente humana é falha — e muito.
Uma maçã é gostosa? Talvez para nós, mas ela não é intrinsicamente gostosa. Nossa mente cria a percepção de que ela é gostosa porque ela pode nos ofecerer carboidratos e vitaminas. As flores nos parecem bonitas, mas não podemos dizer que isso é algo universal. Elas assim nos parecem porque a mente humana as considera bonitas. Talvez um jacaré as ignore por completo. Nossa mente foi desenvolvida pela seleção natural e criou mecanismos para que nós fizéssemos as coisas certas para a sobrevivência e procriação, e não que pudéssemos entender o mundo em sua inteireza. Nossa própria visão é apenas um trecho do espectro de freqüências da luz: certos animais vêem coisas que não aparecem aos nossos olhos. O mesmo se dá na audição.
Além disso, nos foi dado um senso de causalidade e finalidade. Os seres fazem certas coisas para atingir objetivos. Isso está na nossa percepção do mundo e está até na nossa linguagem: falamos sempre em termos de causalidade e finalidade, toda língua tem conjunções para isso. Até dizemos que as gorduras são hidrofóbicas (têm aversão a água). Ora, as gorduras não têm nada, pois não agem por vontade própria. Inventamos fábulas onde os objetos materias ganham vida e têm desejos. E inventamos deuses, à nossa imagem e semelhança. Eles têm raiva, têm inveja de que acreditemos em outros deuses, têm compaixão e listas de regras para nós obedecermos. Isso não soa um tanto... humano?
Por tudo isso, queremos que o mundo tenha sido criado com um objetivo, geralmente o de nós ter dentro dele. Assim como a poça d'água ignora a sua desimportância no universo, nós ignoramos a nossa. Além de achar que somos os reis da Terra, queremos achar que o Universo existe por alguma razão que pareça fazer sentido, quando talvez nem haja motivo; nós atribuímos motivos às coisas porque nossa mente foi moldada para isso, não porque essa é a lei do mundo. Nós só absorvemos o trechinho do mundo que nossos sentidos captam e nossa mente ajusta todos esses dados de um modo que foi favorável para os objetivos da nossa jornada evolutiva, não para que tivéssemos ciência e filosofia. Pense no big bang, pense na poça.
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