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21 de novembro de 2010

Apocalipse motorizado


O organizador do livro Ned Ludd (sim, é um pseudônimo - e bem escolhido), Ivan Illich e André Gorz fazem a abertura, elencando com clareza os problemas relacionados à sociedade do automóvel - as mortes nos "acidentes", a poluição ambiental, os problemas à saúde, o roubo do espaço comum, a opressão e o fim das cidades enquanto local de encontro e convívio. Ricamente recheado com dados, o livro Apocalipse motorizado - a tirania do automóvel em um planeta poluído, uma coletânea de textos, destrói o mito do carro, figura central na sociedade atual, estrela do crescimento econômico de nações desenvolvidas ou periféricas.

A opção pela bicicleta, mais eficiente; as ações antiestradas; uma cidade voltada às pessoas; o surgimento das bicicletadas pelo mundo. Os demais textos chamam à ação e sugerem alternativas para a transformação. Das mais simples às violentas (nada comparado à violência do próprio carro, uma das maiores causa mortis em todo o mundo), passando pelas artísticas e criativas.

Em 154 páginas, você pode passar por todos os dados sobre os efeitos do carro na sociedade, com uma análise lúcida mas radical, além de conhecer as ações e movimentos que já existem pelo mundo e passar por uma vasta lista de sugestões de ação - porque você certamente vai querer fazer alguma coisa.

Links:
Uma entrevista com Ned Ludd
Download do livro

4 de fevereiro de 2010

FSM10: um outro mundo é possível

De 25 a 29 de janeiro de 2010, estive no Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre e nas cidades vizinhas. Para quem não sabe, o FSM é um dos maiores eventos da esquerda do mundo, senão o maior. Ele surgiu em 2001 com o tema "um outro mundo é possível", que na época falava diretamente da luta dos movimentos populares e de esquerda para criar uma alternativa à política neoliberal, que era predominante em todo o mundo. Todo ano o Fórum reúne movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, sindicatos, jornalistas, estudantes, intelectuais e sonhadores; no ano passado houve um grande evento unificado, na Amazônia, e este ano haverá eventos espalhados por diversos lugares do mundo - o de Porto Alegre foi apenas um deles.

O Fórum, que já chegou a reunir 200 mil pessoas de mais de 100 nacionalidades nas edições unificadas, contou com cerca de 30 mil pessoas na grande Porto Alegre. Marcando os seus 10 anos, ele voltou à cidade onde se originou e buscou analisar o que se conquistou e para onde ele caminha agora, que objetivos deve ter e que estratégias tomar. Dentre os presentes esse ano, podemos citar o presidente Lula, as (pré) candidatas Dilma Roussef e Marina Silva, o ministro Tarso Genro, João Pedro Stédile, do MST e o sociólogo Boaventura de Souza Santos, entre tantos outros. Porém, seria muito míope caracterizar o Fórum por seus palestrantes: a relevância do evento é a reunião de milhares de pessoas comprometidas com a mudança social; centenas de organizações compartilhando informação sobre suas lutas, suas dificuldades e suas conquistas; centenas de atividades alternativas e abertas, programadas pelos próprios participantes; enfim, a multiplicidade de ideias e experiências é que faz a força do FSM e o tornou tão bem-sucedido.

Algumas coisas me chamaram bastante a atenção:

Acampamento Intercontinental da Juventude (AIJ)

Já é uma tradição do Fórum o Acampamento Intercontinental da Juventude: um local barato para ficar durante a semana do evento e uma experiência muito interessante em si mesma. Mais que apenas um camping, no AIJ acontecem oficinas, debates, palestras e shows (inclusive, foram mais de 100 shows no FSM, incluindo O teatro mágico, Os mutantes, Nação Zumbi e Marcelo D2). Dividido em campos temáticos, como o Espaço de Saúde Mercedes Sosa, a cidade do Hip-Hop e a Aldeia da Paz, cada qual com suas atividades específicas, o AIJ reproduz o espírito do FSM: um espaço aberto e livre, de organização democrática e horizontal.

Mas um grande problema merece nota: o AIJ ficava incrivelmente longe dos eventos, especialmente de Porto Alegre (demorava cerca de 2 horas para ir até a cidade, pegando um ônibus e um trem). Assim, os acampados (na maioria jovens) ficaram isolados de muitos eventos. O primeiro ônibus saía do acampamento por volta das 8 horas e levava até a estação de trem, por meio do qual se ia para Porto Alegre. Chegava-se na cidade por volta das 10 horas, enquanto as principais mesas de palestras começavam às 9 horas da manhã!

Muitas bandeiras, diversas lutas

Quando o Fórum surgiu, ele tinha um alvo principal: a política econômica do neoliberalismo. De fato, historicamente a esquerda luta contra um inimigo apenas, o capitalismo, o considerando a fonte dos males e problemas da sociedade. Felizmente, essa abordagem evoluiu para uma mais completa, que enxerga outros problemas da sociedade que ultrapassam a desigualdade econômica gerada pelo capitalismo, e o FSM hoje é o encontro de uma infinidade de bandeiras positivas. No primeiro dia do encontro, houve uma grande marcha unificada com todos os movimentos, os partidos, os sindicatos e as ONGs. Uma profusão de lutas importantes. Além de críticos do capitalismo, havia apoiadores dos direitos humanos, defensores da igualdade racial, da igualdade entre os sexos, dos direitos dos quilombolas, dos direitos dos indígenas, da laicidade do Estado e do respeito entre as religiões, do movimento LGBT, da natureza, da liberação animal, da reforma agrária, da reforma urbana, da legalização das drogas leves, das práticas de Economia Solidária e ainda outros. Todos por suas causas e pela causa global contra a opressão, a desigualdade e por um mundo melhor.

Socialismo do século XXI ou Esquerda de Vanguarda?

Como sabemos, houve aqui na América Latina nos últimos anos um fortalecimento da esquerda, através da eleição de diversos grupos políticos progressistas. Alguns desses, como o de Hugo Chavez e de Evo Morales, dizem estar caminhando para o "socialismo do século XXI". Esse novo socialismo se propõe a renovar as centenárias ideias de Marx e outros teóricos e, principalmente, evitar os erros cometidos pelos países que buscaram o socialismo durante o século XX - a burocratização, o autoritarismo, a perseguição, o genocídio, o desrespeito a grupos minoritários, o descaso com a natureza, etc. Certamente é do direito desses governos buscarem a sociedade que quiserem e a nomearem como quiserem, se os seus povos os apoiarem. Porém, o que notei em alguns palestrantes do Fórum, como no sociólogo português Boaventura, foi uma tentativa de aglutinar todas as bandeiras ali levantadas e juntá-las no conceito "socialismo do século XXI", o que é uma desonestidade com seus proponentes - nem só de socialismo vive a esquerda; havia no fórum social-democratas, anarquistas, pessoas alinhadas a outras ideologias e pessoas não alinhadas a nenhuma. A esquerda moderna deve apoiar as diversas lutas encontradas no Fórum, pois são questões importantes na busca por uma sociedade mais justa, igualitária, livre e fraterna, mas não precisa adotar o nome de socialismo - e talvez nem deva! A maior parte da sociedade tem uma opinião negativa do que é o socialismo, em parte por toda a propaganda contrária a esse sistema, mas principalmente por todo o mal que já se fez em seu nome. Não devemos correr o risco de ter ideias tão boas, como as encontradas nos movimentos do FSM, manchadas por tal associação. Socialismo do século XXI pretende não cometer os erros do passado e inovar? Pois inove-se também seu nome, e assim o caminho está livre para criar um outro mundo possível.

O que o FSM deve ser

Muito se discutiu, em especial nas mesas de abertura e encerramento, sobre que rumos os próximos Fóruns devem tomar. Por um lado, alguns argumentam que o FSM deveria buscar uma unidade em torno de algumas questões para se posicionar institucionalmente e poder ter uma influência maior nos rumos da sociedade, já que ele é a maior reunião de diferentes setores da esquerda. Nesse ponto de vista, o Fórum tem se tornado um fim em si mesmo, uma semana em que há muitos debates e ideias, mas que acaba sem uma conclusão e por isso não ajuda a construção de "um outro mundo possível" tanto quando poderia. Por outro lado, argumentaram muitos, a força e a importância do FSM é a sua própria multiplicidade, que seria ameaçada na busca de um consenso; algumas opiniões poderiam ser deixadas de lado e ele se tornaria uma instituição burocratizada e pouco atrante para alguns setores - o que não é difícil de imaginar, quando se tem em mente que lá se encontra desde anarquistas a partidos que não buscam nenhuma revolução, apenas reformas na sociedade. Assim, é essencial manter a pluralidade de ideias e práticas dentro do Fórum. O FSM pensa outros mundos possíveis; a luta política por outro determinado mundo é necessária, mas se dá em outros locais, específicos para tal feitio.

Lula no FSM10

Um dos eventos do FSM se chamava "Diálogos com o presidente Lula", no qual supostamente o presidente faria um discurso e responderia questões dos movimentos sociais. Era pra começar às 18h, mas Lula só chegou 20h30. E o mais surpreendente é que as sete mil pessoas que lotaram o estádio Gigantinho, de Porto Alegre, esperaram todo esse tempo cantando músicas que saudavam o político: "olê / olê olê olá / Lula / Lula!" e "Lula, / guerreiro / do povo brasileiro!". A plateia não era uma amostra balanceada das pessoas do Fórum, que tem muita gente criticando o governo Lula, mas estava repleta de membros dos partidos da base aliada do governo e dos sindicatos, o que explica tamanha popularidade. Ao apresentar o presidente, o representante da organização do FSM aproveitou para fazer 3 perguntas provocativas a respeito da COP15, da situação no Haiti e do PNDH-3, porém Lula não as respondeu diretamente, embora tenha tocado nos três assuntos. A fala do presidente foi muito alinhada às opiniões mais expressas no FSM: defesa de minorias, exaltação dos programas sociais, crítica ao sistema neoliberal, aos órgãos financeiros mundiais e ao Fórum Econômico Mundial de Davos. Também Lula falou muito de solidariedade ao Haiti, fazendo uma defesa do papel das tropas brasileiras que ocupam o país em Missão de Paz da ONU (Minustah). Apesar disso, dois pontos foram negativos em sua fala: primeiro o presidente defendeu o auxílio da Embrapa à plantação na savana africana, para que os países africanos possam se tornar exportadores - o que significa desmatamento da savana para o plantio de monoculturas, que danificam o solo e geram renda para os grandes donos de terra; segundo, Lula se orgulhou de não ter rompido com o FMI, ter pagado as dívidas brasileiras com o órgão e agora estar emprestando dinheiro para ele - o que significa que países mais pobres que o Brasil agora estarão emprestando dinheiro nosso com juros altos; passamos de explorados a exploradores. Diante dessas gafes, do atraso absurdo, da inexistência do diálogo que o nome do evento sugeriu e da esquiva às perguntas feitas pelo representante do FSM, chegou a ser assustador ver a festa que a plateia fez para o presidente, o tratando como um popstar e não com o ceticismo e criticidade com que os políticos devem ser julgados.


Alguns sites bons para ler mais sobre o Fórum:
site do FSM10, site do AIJ, cobertura Caros Amigos

14 de julho de 2009

Do valor da internet II

TED talks são apresentações de até 18 minutos que acontecem nas conferências do TED, cujo lema é Ideas worth spreading (algo como "Ideias que se vale a pena difundir"). A sigla significa Tecnologia, Entretenimento e Design, porém o escopo atual da iniciativa é certamente mais abrangente, incluindo qualquer ideia que se mostre importante e interessante.

Os convidados são os mais ilustres possível: Isabel Allende, escritora parente de Salvador Allende; Chris Anderson, escritor de "A cauda longa" e editor da revista WIRED; Bono Vox, vocalista do U2 e ativista; Richard Dawkins, biólogo evolucionista e divulgador da ciência; Bill Clinton, ex-presidente americano; Dan Dennett, filósofo e cientista; Jared Diamond, intelectual multidisciplinar e ganhador do Pulitzer por "Armas, germes e aço"; Peter Gabriel, cantor e ativista; Bill Gates, criador da Microsoft e filantropo; Al Gore, político e ambientalista; Brian Greene, físico e divulgador da ciência; Stephen Hawking, físico e divulgador da ciência; Chris Jordan, o "fotógrafo dos excessos"; Marvin Minsky, pioneiro da Inteligência Artificial; Vik Muniz, artista brasileiro inovador; Michelle Obama, primeira-dama dos EUA; Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google; Steven Pinker, maior divulgador da psicologia evolucionista; Vilayanur Ramachandran, neurologista e escritor; Adam Savage, apresentador do programa MythBusters; Philippe Starck, designer; Jill Taylor, escritora de "A cientista que curou seu próprio cérebro"; Craig Venter, pioneiro no mapeamento do genoma humano; James Watson, co-descobridor do DNA; Edward O. Wilson, biólogo e escritor; e tantos outros. (Essa seleção foi minha, não se espera que você conheça todos ou a maioria. Eu certamente deixei muita gente interessante de lado por não saber quem é. Você pode ver a lista completa aqui). Enfim, músicos, artistas, pacifistas, inovadores, cientistas, políticos, ativistas, escritores; todos visionários que acreditam no poder de mudança das ideias, na busca por um mundo melhor.


E, recentemente, eles expandiram grandemente o universo abordado pelos TED talks — fizeram versões legendadas de boa parte das palestras. O trabalho é feito por voluntários do mundo todo — inclusive, se você souber inglês e quiser ajudar essa iniciativa que certamente vale a pena, isso é bem vindo. Elas podem ser vistas com legendas em português brasileiro aqui. Quem sabe Caio Graco devesse ter dito: "As ideias não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. As ideias só mudam as pessoas".

http://www.ted.com

3 de maio de 2009

Ataraxia

1. (Filosofia) A prática da imperturbalidade como meio de alcançar a felicidade; um prazer que vem da mente em paz.

30 de março de 2009

http://www.academicearth.org — Site que organiza as aulas diversas que universidades entre as mais conceituadas do mundo disponibilizam na internet gratuitamente, conforme já foi falado aqui nesse blog. Quer dizer, agora está mais fácil ainda.

21 de setembro de 2008

Deus e Deus

Trecho do duplamente fantástico (ótimo e fantasioso) livro Incidente em Antares:

— Eu quisera acreditar em Deus e na vida eterna. Mas não posso. Nunca pude. Mas acredito nesta vida. E como! Tenho esperança num futuro melhor para nossa terra, para o mundo. Quero que meu filho nasça, cresça e viva para participar desse mundo.
— Isso é religião — disse-lhe baixinho. — Você diz que não acredita em Deus, mas vejo que acredita em todos os seus pseudônimos.

O primeiro falante é um defensor dos direitos humanos e da liberdade que foi morto pela polícia que o interrogava acusando-o de comunista; o segundo é um padre defensor dos oprimidos, algo meio Teologia da Libertação.

Quisera eu, como ateu, que o ideário ao redor de Deus fosse mesmo esse descrito pelo padre esquerdista. Deus sendo apenas amor ao próximo, luta por um futuro melhor, paz e direitos aos seres. Pessoa alguma no mundo precisaria escrever um livro propagandeando o ateísmo, pois o efeito do suposto Deus seria algo infinitamente bom, ao contrário da discriminação, separação entre povos e manipulação que ele traz na vida factual.

Aos religiosos: mais Deus, menos religião! E viva a liberdade de crença ou ausência dela.

21 de abril de 2008

Chomsky e o poder

Vez em quando, nos acontece algo que muda tudo. Algo que realmente transforma o modo como vemos as coisas e o mundo. É essa a impressão que nos deixa o lingüista e ativista político Noam Chomsky. Por influência de alguns livros de divulgação científica que sempre citavam Chomsky e também por uma matéria da Superinteressante entrei em contato com este gênio.

Chomsky revolucionou seu ramo de estudo, a lingüística, com sua gramática ge(ne)rativa transformacional, que usa matemática para explicar as línguas, mas não é sobre o cientista que quero falar (até porque eu não entendo nada de lingüística mesmo). É sobre o Chomsky militante. Nascido nos EUA, estudou em uma escola progressista onde podia seguir seus interesses, bem diferente de nossas escolas com prazos e regras. Aos 10 anos, escreveu um ensaio sobre a Guerra Civil Espanhola; aos doze já se identificava com ideais anárquicos.

Ao longo de sua vida — ele tem hoje 79 anos — escreveu vários livros sobre as estruturas do poder americano, suas estratégias imorais para manter o poder, o perigo
do neoliberalismo, o modo como a mídia controla as pessoas e outras questões. A princípio, podem lhe parecer coisas enfadonhas, como a mim teriam parecido antes de lê-lo, mas garanto a vocês que não são. A leitura das idéias e ideais de Chomsky nos atinge como tapas na cara, a simplicidade com que ele mostra toda a tirania por trás dos atos dos poderosos chega a ser irritante. Qualquer um que não quer ser uma peça no jogo das corporações dominantes que buscam lucros acima das pessoas deveria ler Chomsky.


No livro “Para entender o poder”, uma coletânea de palestras dadas pelo ativista foram selecionadas para apresentar seus principais argumentos, cobrindo desde os movimentos pelos direitos humanos dos anos 60, das ditaduras patrocinadas pela CIA por todo o mundo, até a falsa democracia americana e a mídia manipuladora. O livro certamente nos mostra que aquela imagem que temos ao estudar a História, de que antigamente o mundo girava pela cobiça e pelo dinheiro, sem se import
ar com as pessoas, na realidade pouco mudou. O que mudou, quem sabe, é o modo como isso é escondido de nós.

Além do mais, não conheço ninguém que tenha o lido e isso é altamente frustrante, por não poder conversar com ninguém, então eu estou emprestando para quem quiser. Como disse uma crítica do The Nation, “Nunca o ter lido é flertar com a verdadeira ignorância”.



12 de abril de 2008

Science easy as a 3,14 (π)

Quem entende a seleção natural? A teoria da relatividade geral? A mecânica quântica? Bom, com certa variação entre cada uma, podemos dizer que boa parte das pessoas não entende tais coisas — inclusive você que diz que o homem veio do macaco.*

Isso certamente não é estranho, não são coisas óbvias, é preciso ler para entendê-las. O que é estranho é que as pessoas não parecem querer entender. Mas os limites do conhecimento humano não interessam o povo em geral? Dificilmente. A ciência traz periodicamente avanços incríveis pra sociedade — coisas que realmente mudam nossa vida —, como a criação das máquinas a vapor que levaram à Revolução Industrial. (Vale comentar que na Grécia Antiga, antes de Cristo, já havia sido criado uma máquina a vapor, mas na época ela era desnecessária porque eles tinham escravos e não recebeu muito crédito.)
Essas evoluções do saber são interessantes. Muito interessantes. Aí que me arrisco a deduzir: as pessoas não tentam entender porque existe uma grande sensação de que são coisas elevadas, complicadas demais para o cidadão comum. As pessoas desistem.

Agora, o que se pode dizer tranqüilamente é que as pessoas não precisavam desistir. E isso porque existe um segmento da literatura dedicado especialmente a isso: divulgar a ciência de modo simples e claro para o leitor que não é especialista. No meio acadêmico, chamam isso de “divulgação científica” — Ok, isso foi uma piada — e grandes cientistas de vários ramos de conhecimento vêm se dedicando à tarefa. Se você tem interesse por astronomia, surgimento do Universo e afins, você pode ler Stephen Hawking ou Carl Sagan. Se você se interessa pelo surgimento da vida e outras questões da biologia, você pode ler livros de Stephen J. Gould e Richard Dawkins. Se quer entender a mente humana, pode ler Steven Pinker. A lista continua.

Além de livros, existem revistas de divulgação científica, como a SciAm Brasil ou a Superinteressante (embora quanto a essa haja controvérsias). Existem documentários muito bons sobre vários assuntos científicos, como os feitos pela BBC. Ou seja, hoje em dia podemos entender a ciência e perceber seus avanços mesmo sem diplomas. E por que não faríamos isso? Quem sabe boa parte das nossas dúvidas filosóficas já estejam resolvidas. Quem sabe perguntas que nunca nos fizemos tenham respostas incríveis. É a impressão que eu tenho. Descubra.



*A história de que o homem veio do macaco é um erro que surgiu da má explicação da seleção natural. O fato é que a nossa espécie e os macacos atuais tiveram um parente em comum, em um passado relativamente recente. Inclusive, pesquisas no DNA revelam que os macacos atuais mudaram mais que nós, ou seja, esse parente antigo parecia-se mais conosco que com os outros símios. Uma bela rasteira nos nossos egos, hein?

23 de fevereiro de 2008

"O conhecimento é em si mesmo um poder". (Francis Bacon)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros". (Benjamin Franklin)

E o que dizer, então, de podermos assistir às aulas de faculdades renomadas como MIT, Yale e Stanford de graça? Aprender com alguns dos maiores cientistas da atualidade tendo como único investimento o tempo? É isso que nos proporciona esses tempos modernos.

Recentemente, a revista Veja escreveu uma matéria sobre esse assunto, que pode ser lida aqui: http://veja.abril.com.br/200208/p_082.shtml. Na matéria você encontra os sites para conferir as aulas.

E como funciona? É simples. A aula integral é filmada e disponibilizada na internet, para qualquer pessoa conectada no mundo poder aprender. O que as universidades ganham com isso? Milhares de acessos, causando em vários a vontade de estudar nessas universidades, a satisfação de semear o conhecimento nas pessoas, ajudando a humanidade e a fama de visionárias, talvez, visto que a internet é um meio democrático onde ocorre a troca gratuita de informações e atualmente transita praticamente qualquer coisa que você quiser, desde um cd de axé a uma palestra do Richard Dawkins. É o caminho que o mundo tem tomado, e elas estão se ajustando a isso.

Para experimentar a novidade, fui no site da Yale e assisti a uma aula de 'Introdução à psicologia', com Paul Bloom. Na aula, ao citar que estão sendo filmados para a internet, ele brinca que a iniciativa faz parte de uma tentativa de dominar o mundo. Sendo uma aula introdutória, não é necessário conhecimento algum de psicologia, basta dominar o inglês. Não consigo imaginar nenhum uso melhor da internet. Vale a pena.

E agora, não preciso mais fazer uma faculdade? Naturalmente, só assistir a aulas na internet não vale tanto quanto realmente freqüentar aulas, ter contato com os professores, os livros e com a universidade em si. Além do mais, você não receberá nenhum tipo de diploma. O que importa é o conhecimento em si, o próprio saber. Isso pode não parecer muito para uma maioria, que vai dizer “ah, vou ter aula lá pra nada?”, mas creio que vocês, leitores, não pensem assim: percebem essa oportunidade.

O que diriam todo
s os pensadores antigos e atuais sobre isso? Provavelmente concordariam em como é uma grande idéia. Não há discordância entre eles, todos sabem a grande importância da educação na formação das pessoas e, por conseqüência, da sociedade.
E a nós, cabe aproveitar!

19 de fevereiro de 2008

O (pequeno) príncipe

“Quem quiser fazer profissão de bondade não pode evitar sua ruína entre tantos que são maus”

O príncipe, de Maquiavel, é sem dúvida um dos livros mais influentes na nossa história. Talvez o segundo mais influente, após a Bíblia. Leitura considerada indispensável por 11 em cada dez repetidores de sensos comuns, então me pus a lê-lo.

O livro é de uma honestidade incomum, pois trata das dificuldades do controle e da manipulação do povo como se essas questões não fossem... bem, maquiavélicas.
Percorrendo todas as nuances de ser um príncipe (no caso, um déspota que reina sobre alguma localidade, conquistada ou herdada, como era comum antigamente), de conquistar novos territórios e impedir a população de se rebelar nos seus já conquistados, ele apresenta insights sobre comportamento, técnicas e atitudes.
Não é à toa que a frase “os fins justificam os meios” é (erroneamente) creditada a ele.

Maquiavel afirma categoricamente que o homem é mau, só deixando de sê-lo quando há benefícios para isso. É um dos extremos da compreensão dos homens, onde, curiosamente, parece ser o oposto da visão de O pequeno príncipe, o clássico infantil-para-adultos de
Saint-Exupéry.

Le petit prince é uma leitura muito mais leve (como dificilmente deixaria de ser, tendo sido publicado 400 anos mais tarde), que ao contrário do amoral guia italiano, nos deixa esperançosos e contentes com nossa natureza. O ser humano não é mau, só é levado a ser com maus hábitos adquiridos quando larga a infância. Sim, são livros com propósitos e contextos diferentes, mas que se encontram nessa análise humana. “O príncipe” é lido e cultuado desde antes da Idade Contemporânea; sempre correto, graças à ganância dos “animais racionais”, e é o livro de cabeceira de vários governantes, entre eles o ex-presidente FHC. “O pequeno príncipe” é o livro de cabeceira da Carla Perez. Ainda assim, a mensagem do segundo é mais atraente, quem sabe até nos faça pessoas melhores.

Sei que entre eles, eu escolho “O pequeno príncipe” e iria preferir ter à minha volta pessoas que fizessem o mesmo.

Ps: ainda assim, entro na lista dos que recomendam a leitura de “O príncipe”. Mas recomendo também O pequeno, para aliviar a frieza maquiavélica...