20 de janeiro de 2009

A história é cíclica?

"Os Estados Unidos, por sua parte, com as pernas presas na armadilha das guerras no Sudeste Asiático, não ocultaram o mal-estar oficial ante a marcha dos acontecimentos no sul da cordilheira do Andes. No entanto, o Chile não está ao alcance de uma súbita expedição de marines e, afinal de contas, Allende era presidente com todos os requisitos da democracia representativa que o país do Norte formalmente prega. O imperialismo atravessa as primeiras etapas de um novo ciclo crítico, cujos signos se tornaram claros na economia; sua função de polícia mundial se faz cada vez mais cara e mais difícil". (Eduardo Galeano, no livro "As veias abertas da América Latina, publicado em 1971)

Não é só um texto introdutório, o trecho do livro é a parte central do meu texto. Prestem atenção: o livro foi publicado em 1971. Voltemos um pouco no tempo.

Fim da Segunda Guerra Mundial, 1945. Começa a chamada Guerra Fria, uma tentativa de divisão do mundo em duas zonas de influência pelas maiores potências da época, EUA e URSS, que em teoria apoiavam o capitalismo e o socialismo, respectivamente. Em teoria, porque a China se dizia socialista e estava ligada aos EUA, e estes guerrearam contra grupos nacionalistas no exterior em nome da ideologia americana, embora os inimigos não fossem socialistas. Também a URSS não era igualitária e livre como uma sociedade socialista devia ser. Enfim, divisão do mundo entre "países que não incomodam os interesses americanos" e "países que não incomodam os interesses soviéticos". A Guerra Fria se estendeu até 1991. Nos anos 60 e 70, ela estava no auge.

Início da Guerra do Vietnã, 1959. É a isso que Galeano se refere quando fala da "armadilha das guerras no Sudeste Asiático"; uma guerra complicada para os estadunidenses, embora eles tivessem tecnologia bélica muito superior. Em 1973, por força da opinião pública contrária à guerra e por pouca perspectiva de uma vitória a curto prazo, e depois de 50 mil soldados americanos mortos, os EUA saem da guerra. Em 1976, o Vietnã é unificado sob governo socialista.

Eleições presidenciais chilenas, 1970. A coalizão de esquerda Unidade Popular, com o candidato Salvador Allende, um médico marxista, vence. Dentro da América — no "quintal dos EUA", como se diz por lá e por aqui — outro governo socialista surge, depois de Cuba, em plena Guerra Fria.

Alguns meses atrás, eu fiz um post sobre a tendência de esquerda dos novos governos do nosso continente. Ela é muito parecida com a que estava acontecendo nos anos 60 e 70, até que os EUA ajudaram golpes de estado direitistas em boa parte dos países da América Latina, inclusive o golpe militar brasileiro. O livro do Galeano foi publicado nessa época: enquanto aconteciam os golpes.

Substituindo "guerras no Sudeste Asiático" por "guerras no Oriente Médio", "sul da cordilheira dos Andes" por "extremo norte da cordilheira dos Andes"¹, "Chile" e "Allende" por "Venezuela" e "Chavez", temos uma bela análise do panorama atual. E é mais ou menos o que se tem cogitado: se os EUA vão ter poder para continuar mexendo os pauzinhos na região, com toda a crise econômica e as guerras. Eu achava que não, que a nossa região estava aos poucos saindo das mãos americanas, que tanto exploraram nossas riquezas. Porém, encontro essa mesma previsão no livro, em 1971. Aconteceu que os EUA financiaram o golpe militar no Chile, Salvador Allende foi deposto, morreu² e começou a ditadura de Pinochet.

Parece que os ataques à democracia atrasaram o continente em algumas décadas e agora voltamos àquele mesmo ponto, com a esquerda assumindo o poder democraticamente. Resta saber, agora, se isso é só uma coincidência, se o mundo não é mais o mesmo e se, enfim, as coisas vão mudar. Ou a história é cíclica e, nesse caso, estamos fadados a esse papel subalterno no mundo? O continente exportador de matéria-prima a baixo preço, o "quintal" dos estadunidenses? Eduardo Galeando vai ficar errando e errando na sua previsão de autonomia latino-americana, ou só estava alguns anos à frente de seu tempo?

¹: Sim, a cordilheira dos Andes vai do Chile até a Venezuela, no extremo norte da América do Sul. Também fiquei surpreso...
²: Allende morreu dia 11 de setembro de 1973; não se sabe se foi suicídio ou se ele foi morto. Achou a data curiosa? Pois então, alguns dizem que Bin Laden atacou nesse dia para homenagear o inimigo estadunidense, eleito pelo povo e deposto pela força.

17 de dezembro de 2008

Nós, a poça d'água

"Imagine uma poça d'água acordando um dia e pensando, "Que mundo interessante este em que me encontro, um buraco interessante, ele me serve direitinho, não? Na verdade, ele me serve perfeitamente bem, só pode ter sido feito para me ter dentro dele!". E essa é uma idéia tão poderosa que, enquanto o sol nasce no céu e o ar se aquece e, gradualmente, a poça vai ficando menor e menor, ela ainda se agarra desesperadamente à noção de que tudo dará certo, porque o mundo foi criado para tê-la dentro dele; assim, o momento em que ela desaparece por completo a pega de surpresa.
Eu acho que isso é algo que nós devemos estar de olho". (Douglas Adams)


Eu espero que vocês vejam essa historinha divertida, criada pelo ótimo Douglas Adams (escritor da série Guia do Mochileiro das Galáxias), como um sério argumento. Um argumento contra a presunção humana, nosso antropocentrismo infundado. Não somos o centro do Universo, não somos uma criação divina, tudo bem. Mas vai mais longe: o que nós temos como certo pode estar longe da verdade, pois a mente humana é falha — e muito.

Uma maçã é gostosa? Talvez para nós, mas ela não é intrinsicamente gostosa. Nossa mente cria a percepção de que ela é gostosa porque ela pode nos ofecerer carboidratos e vitaminas. As flores nos parecem bonitas, mas não podemos dizer que isso é algo universal. Elas assim nos parecem porque a mente humana as considera bonitas. Talvez um jacaré as ignore por completo. Nossa mente foi desenvolvida pela seleção natural e criou mecanismos para que nós fizéssemos as coisas certas para a sobrevivência e procriação, e não que pudéssemos entender o mundo em sua inteireza. Nossa própria visão é apenas um trecho do espectro de freqüências da luz: certos animais vêem coisas que não aparecem aos nossos olhos. O mesmo se dá na audição.

Além disso, nos foi dado um senso de causalidade e finalidade. Os seres fazem certas coisas para atingir objetivos. Isso está na nossa percepção do mundo e está até na nossa linguagem: falamos sempre em termos de causalidade e finalidade, toda língua tem conjunções para isso. Até dizemos que as gorduras são hidrofóbicas (têm aversão a água). Ora, as gorduras não têm nada, pois não agem por vontade própria. Inventamos fábulas onde os objetos materias ganham vida e têm desejos. E inventamos deuses, à nossa imagem e semelhança. Eles têm raiva, têm inveja de que acreditemos em outros deuses, têm compaixão e listas de regras para nós obedecermos. Isso não soa um tanto... humano?

Por tudo isso, queremos que o mundo tenha sido criado com um objetivo, geralmente o de nós ter dentro dele. Assim como a poça d'água ignora a sua desimportância no universo, nós ignoramos a nossa. Além de achar que somos os reis da Terra, queremos achar que o Universo existe por alguma razão que pareça fazer sentido, quando talvez nem haja motivo; nós atribuímos motivos às coisas porque nossa mente foi moldada para isso, não porque essa é a lei do mundo. Nós só absorvemos o trechinho do mundo que nossos sentidos captam e nossa mente ajusta todos esses dados de um modo que foi favorável para os objetivos da nossa jornada evolutiva, não para que tivéssemos ciência e filosofia. Pense no big bang, pense na poça.

29 de novembro de 2008

Enchente(´), egalité, fraternité

Incidente
Sábado, 22 de novembro de 2008, começou a maior enchente da história da região de Santa Catarina e provavelmente do Brasil. Na maior parte do litoral do Estado, onde vive a maioria da população, chovia quase todos os dias há mais de um mês. Eu moro em Joinville, no norte do Estado, e a situação aqui não foi diferente. A água engoliu a cidade: ruas viraram rios e casas foram destruídas; muita gente perdeu móveis, roupas, eletrodomésticos e até a própria moradia. No resto do Estado, já foram confirmadas 109 mortes (em uma semana). Mais de 70 mil pessoas estão desalojadas ou desabrigadas.

Essa catástrofe aconteceu por uma infeliz soma de eventos metereológicos: há uma massa de ar frio sobre o oceano, próximo ao litoral. Existe uma frente fria úmida que vem da Amazônia e ela está presa por causa de uma massa de ar quente que está no Nordeste. A massa oceânica causa ventos anti-horários que jogam a umidade da massa que vem da Amazônia no litoral catarinense. Como temos uma serra separando o litoral e arredores do centro-oeste do Estado, toda essa umidade fica na nossa região, ocasionando toda essa chuva.

Na maioria das cidades afetadas, foram criados postos de coleta de roupas, alimentos, remédios, etc., que vêm funcionando graças às doações e ao trabalho voluntário.


Trabalho voluntário
Ontem eu fui tentar ajudar as pessoas, e eu fiquei impressionado. Um galpão enorme (Expocentro Edmundo Doubrawa), onde milhares (!) de pessoas trabalhavam recebendo as doações, separando roupas e alimentos, criando kits embalados e carregando os caminhões que partiam para os pontos afetados da cidade. Todos lá sem remuneração alguma, dedicando seu tempo e esforço pelo bem comum.

Você entra lá e pergunta para qualquer um: “como posso ajudar?”. Cadastra-se em um minuto e logo alguém te indica onde ser útil. Independente de para onde você vá, qualquer um ao seu lado logo o ensina o que você tem que fazer. Em pouco tempo chega mais gente, e você que estará ensinando a pessoa a ajudar.

Tudo aquilo é autogerido, as pessoas que se organizaram e prepararam. Não existe obrigação nem chefe; cada um faz por vontade de ajudar. Não existe hierarquia; quem está delegando as funções também está trabalhando. Cada um está pensando em como fazer melhor, como ser mais eficiente, então todos dão sugestões. O clima lá dentro é de total amizade, todos se ajudam, alguns brincam e todos se chamam pelo nome (que está no seu crachá). Por trabalhar lado a lado, surge a fraternidade. Também o trabalho é simples: escolher peças, separar comida, carregar os kits para os caminhões. Um pequeno universo com igualdade e fraternidade, baseado na ajuda mútua, sem obrigações.

Enfim, não vou me prolongar. Só isso: doem! doem roupas, doem alimento, doem remédios, doem dinheiro (só para as contas oficiais abertas para tal, pelo governo), doem seu esforço. Além de salvar e reconstruir vidas, é uma grande massagem na consciência.


Fotos, dados

12 de novembro de 2008

Touché

"Educação e religião são duas coisas não reguladas pela lei de oferta e demanda. Quanto menos as pessoas têm, menos querem".

Não sei quem é o autor, mas gostei.

31 de outubro de 2008

A efervescência política na América Latina

De 29 a 31 de outubro (de 2008, ano em que estamos) ocorreu a Cúpula Ibero-Americana XVIII. Uma reunião com os chefes de Estado de quase todos os países da América Latina, além dos de Espanha e Portugal, para discutirem as possibilidades da região.

Foi nela que, ano passado, Chávez recebeu o "¿Por qué no te callas?" que ficou tão famoso. Pois bem, neste ano Chávez não compareceu na reunião que aconteceu em El Salvador, alegando que lá corria risco de vida. Até onde notei (e posso estar enganado, pois não costumo ver televisão), o evento não recebeu a devida atencão da mídia — e eu imagino o porquê.

Apesar da ausência do controverso presidente venezuelano, os vários discursos dos líderes foram tão exaltados quanto os de Chávez, em especial o do boliviano Evo Morales, que atacou todo o sistema capitalista, que "agora que está em crise, pede ajuda para salvar-se à custa dos pobres, explorando o homem e saqueando os recursos naturais". Morales ainda afirmou: "pensar em salvar o capitalismo novamente seria um equívoco".

Além dele, as presidentes do Chile e da Argentina, Michelle Bachelet e Cristina Kirchner discursaram contra o neoliberalismo, apontando tal tendência da economia como responsável pela crise atual, além de defender que a não-intervenção estatal no mercado gera desigualdade social e pobreza.

É notório que as maiores nações da América Latina vêm elegendo presidentes com tendências socialistas. Além dos já citados, podemos incluir o bispo paraguaio Fernando Lugo, o equatoriano Rafael Correa e, é claro, Raúl Castro de Cuba. Se Lula cabe nessa lista, eu tenho minhas dúvidas, mas sabemos que ele é um ex-sindicalista de origem humilde e defensor de ideais da esquerda de longa data.

Essa tendência de esquerdização da América Latina nos remete àquela que ocorria no auge da Guerra Fria, que foi criminosamente barrada pela força bruta dos regimes ditatoriais que se instituíram em vários países, sempre apoiados pelos Estados Unidos. Outra "coincidência": há uma aparente nova corrida armamentista.

A tensão no mundo aumenta com a violência do Exército russo na Ossétia do Sul; os planos imperialistas americanos no Oriente Médio, a reativação da Quarta Frota dos EUA que anda rondando a América do Sul e o sistema antimísseis americano no leste europeu; e o grande investimento que Chávez tem feito em armamentos comprados da Rússia — Chávez é um dos maiores opositores da política externa americana.

Vale lembrar que, agora, os EUA estão voltados à grande crise financeira, que tem sido comparada à de 1929, e às eleições que acontecem na semana que vem. Não é necessário apenas considerar se os EUA planejam intervir na política da América Latina, mas também se eles ainda têm poder para fazê-lo. Estamos presenciando um momento-chave da história da região e do mundo. Quais serão os efeitos da crise no sistema político-econômico global? É esta a queda do império americano? A América Latina vai se unir verdadeiramente em torno do ideal socialista? Se sim, isso é uma boa notícia para o povo americano? Acompanhem os jornais!¹

¹: E duvidem de tudo que eles disserem, é claro. Como eu dizia no início do texto, a mídia não deu atenção aos pronunciamentos de esquerda dos presidentes. É sempre bom buscar informações fora da mídia tradicional. Essas informações sobre a Cúpula foram tiradas da Terra Magazine — não exatamente uma mídia alternativa, mas que cobriu todo o evento. Principalmente aqui.

Morfologias que deveriam ser I

Individualismo: Considerado por alguns o mal do século XXI, a palavra caracteriza comportamento geralmente egoísta, buscando apenas o benefício próprio — de onde recebe o "indi", vindo de "independência" —, mas sem nunca deixar de se apoiar na comunhão dos problemas com o outro — daí o "dual", referente a "dois", ou seja, contrário à unificação das dificuldades para si. Trata-se evidentemente de uma desordem mental, como depreende-se do sufixo "ismo", presente em palavras como "autismo". Aquele acometido pela desordem individualista sofre sérios problemas no neocórtex, área responsável pelo pensamento crítico, o que faz com que o sujeito não perceba as profundas incoerências nas suas atitudes. Dentro de um contexto econômico, o conceito recebe outro nome: "neoliberalismo", que mantém o sufixo para deixar claro que a incoerência decorrente do dano mental é a mesma.

24 de outubro de 2008

A outra mão do mercado¹

Dr. Frankenstein uniu várias partes humanas e criou um terrível monstro que acabou por matá-lo. Se de cientista maluco temos todos um pouco, nosso monstro é a economia mundial, feito com o dinheiro das civilizações antigas, partes do liberalismo francês e a exploração do homem sobre o homem — a moralidade foi deixada de lado, já que poderia atrapalhar tudo.

Vive-se hoje uma silenciosa transição de poder. Os grandes líderes mundiais, que a população imagina em secretas reuniões a tramar esquemas imorais, não são mais altos cargos da burocracia estatal. Junto à Guerra Fria, acabou a Era dos Governos. Os manda-chuvas atuais são os acionistas majoritários das grandes corporações, que têm um só objetivo: lucro.

A subordinação dos valores morais à racionalidade econômica é gritante quando analisamos fatos como as guerras americanas ao Iraque, apoiadas no Congresso pelo milionário lobby das companhias petrolíferas, as chamadas Sete Irmãs; a onda neoliberal, o chamado Consenso de Washington, cuja maior reivindicação é o fim dos direitos trabalhistas; ou a maior distribuição de lucros aos acionistas da empresa de tabaco Santa (?) Cruz, um motivo econômico para atrair aqueles receosos em investir em um produto que mata milhões de pessoas por ano.

Uma mão do ser que criamos é aquela de que nos falava Adam Smith, a que guiaria a economia. Depois da crise de 1929, do descaso secular das corporações com pessoas e meio-ambiente e da possível crise atual do capitalismo, descobrimos que a outra mão tapa os olhos do nosso monstro. Sem controle popular do mercado mundial, continuaremos dirigindo nessa rua esburacada, guiados com velocidade, em direção a um muro.


¹ Redação com o tema proposto "Ética e Mercado", na qual era necessária a frase "A subordinação dos valores morais à racionalidade econômica".