21 de novembro de 2010

Apocalipse motorizado


O organizador do livro Ned Ludd (sim, é um pseudônimo - e bem escolhido), Ivan Illich e André Gorz fazem a abertura, elencando com clareza os problemas relacionados à sociedade do automóvel - as mortes nos "acidentes", a poluição ambiental, os problemas à saúde, o roubo do espaço comum, a opressão e o fim das cidades enquanto local de encontro e convívio. Ricamente recheado com dados, o livro Apocalipse motorizado - a tirania do automóvel em um planeta poluído, uma coletânea de textos, destrói o mito do carro, figura central na sociedade atual, estrela do crescimento econômico de nações desenvolvidas ou periféricas.

A opção pela bicicleta, mais eficiente; as ações antiestradas; uma cidade voltada às pessoas; o surgimento das bicicletadas pelo mundo. Os demais textos chamam à ação e sugerem alternativas para a transformação. Das mais simples às violentas (nada comparado à violência do próprio carro, uma das maiores causa mortis em todo o mundo), passando pelas artísticas e criativas.

Em 154 páginas, você pode passar por todos os dados sobre os efeitos do carro na sociedade, com uma análise lúcida mas radical, além de conhecer as ações e movimentos que já existem pelo mundo e passar por uma vasta lista de sugestões de ação - porque você certamente vai querer fazer alguma coisa.

Links:
Uma entrevista com Ned Ludd
Download do livro

12 de setembro de 2010

Atualização, enfim

Olá.

Acho que foi no começo desse ano que eu reafirmei a existência desse blog e disse que ele estava de volta, que eu ia postar regularmente (talvez tenha dito semanalmente), que eu ia mudar o layout dele, enfim. Ocupações mais urgentes, embora nem sempre tão importantes, me impediram. Digo isso apesar de valorizar bastante a minha maior fonte de preocupações e afazeres, a faculdade. Escrever pro blog frequentemente pode se mostrar mais importante que estudar para uma prova ou preparar uma apresentação de slides para um trabalho qualquer, que além do mais é apresentado semestralmente por quem quer que esteja cursando a disciplina no momento. O blog é unicamente meu, eu crio seu objetivo e execução. São responsabilidades minhas as questões de se isso deveria ser abordado, se isso é importante, se essa fonte é confiável, se algum assunto merece entrar. Além disso, redigir a partir daquilo que flutua na mente, não em palavras, mas em "mentalês", é um desafio agradável.

Feita essa breve ode ao blog
– meio batida, é verdade – e até meio ultrapassada talvez, visto que hoje o que é moderno é o microblog – e eu tenho um – onde eu estava mesmo? – Ah! Feita essa ode ao blog, explico meus planos para o futuro dessa página.

Além do que mais que já entrava aqui, vez em quando (raramente!), pretendo resenhar ou comentar todo livro que eu ler. E talvez alguns filmes também. E talvez vídeos do youtube ou arte ou o que quer que seja. Pensando bem, isso já não seria novidade, seria basicamente escrever sobre qualquer coisa, como eu já faço. (Pausa: minha prosa tá truncada
– pode ser que eu esteja com uma montoeira de ideias, todas se empurrando na minha mente, lutando para sair no papel digital – pode ser que eu só tenha perdido o bom-senso da fluidez textual – pode ser que eu esteja achando que isso é um recurso estilístico interessante – enfim!). Vou escrever sobre o que ler a partir de agora. Talvez sobre um ou outro filme também.

Me alegra que você esteja lendo. (Assim, começando com um pronome mesmo, que é como se fala).
Até logo.

29 de junho de 2010

As ruas e a Copa do Mundo

Todo mundo imagina que as ruas das cidades devem ficar desertas durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo. Eu, que não faço questão de torcer por alguns desconhecidos contra outros desconhecidos só porque aconteceu de os primeiros nascerem no mesmo pedaço de terra limitado por linhas imaginárias que eu (ufa!), aproveitei a ocasião para um tour pela cidade, de bicicleta e câmera fotográfica na mão. Foi dia 28/06, no jogo das oitavas-de-final, Brasil e Chile. A cidade é Florianópolis, no caso. Clique nas imagens para vê-las em tamanho bom e escolha suas favoritas!













1. 15h20, Av. Mauro Ramos
2 e 3. 15h40, Av. Hercílio Luz
4 e 5. 15h50, Rod. Gov. Gustavo Richard
6. 15h55, Av, Paulo Fontes
7. 16h, Conselheiro Mafra
8. 16h, Rua Tenente Silveira
9. 16h10, Rua Arcipreste Paiva
10. 16h25, Av. Paulo Fontes
11. 16h45, Av. Beira Mar
12. 16h50, Av Beira Mar

26 de junho de 2010

Florianópolis e a tarifa do ônibus

A prefeitura de Florianópolis novamente nos brindou com um aumento nas tarifas de ônibus recentemente. A notícia é de maio de 2010, mas poderia ser de 2006, 2007, 2008 ou 2009 (duas vezes!). Em 2004 e 2005, aumentos na tarifa foram revogados devido à força das manifestações populares, porém desde então as reivindicações da sociedade não têm alcançado vitórias claras, apesar de acontecerem anualmente.

A julgar pelo tamanho das manifestações, pela organização e pelo apoio da sociedade como um todo, este ano parece propício para novamente barrar um aumento que é ilegítimo (a tarifa mais cara do país, com aumentos muito acima da inflação, para um serviço ruim, etc.). Porém, impedindo ou não o aumento, o movimento terá fracassado se não fomentar com toda a população a discussão sobre a importância do transporte coletivo em garantir o direito constitucional de ir e vir, além de ser fundamental para diminuir a poluição, melhorar a mobilidade urbana e a qualidade de vida geral.

Tarifa nova
Os ônibus são essenciais para a locomoção de uma grande parcela da sociedade, que não pode ou não quer ter carros e motos. Eles transportam muito mais gente com menor gasto de espaço e combustível – ou seja, por menos dinheiro e poluição. Porém, devido ao serviço ruim e caro, não é justo cobrar da população que troque o conforto e a autonomia do carro pessoal pelo ônibus lotado e com poucos horários, especialmente quando essa troca nem valeria a pena financeiramente! Pedro Magalhães, estudante de Engenharia Mecânica da UFSC, fez os cálculos para um carro que rode 10km por litro, a um preço de 2,50R$ por litro de gasolina, além de mais 0,10R$ a cada quilômetro em manutenção do carro, e sumarizou os dados no gráfico abaixo. Dirigir oito quilômetros sozinho de carro é mais barato que ir de ônibus!


Como pode um meio de transporte incrivelmente mais eficiente custar mais caro? A resposta é que o sistema é gerido por empresas, apesar de ser um serviço público. E, ao contrário dos governos que precisam ao menos conquistar metade da população uma vez a cada quatro anos, as empresas podem se preocupar direta e unicamente com seus lucros. Oficialmente, a prefeitura deveria fiscalizar a qualidade do serviço e tem poder legal para retirar a concessão das empresas, caso elas não estejam satisfazendo a população. No entanto, o que vemos é nosso prefeito ratificando todo ano os aumentos na passagem. Dário Berger se elegeu em 2004 com a proposta de abrir a “caixa preta” do transporte público, mas até hoje os lucros dos donos das empresas não são divulgados. Inclusive, o período legal da concessão das companhias que fornecem o serviço expirou em 2009, mas ainda não foi feita nova licitação.

Tarifa zero
Na contra-mão da valorização do transporte individual poluidor e ineficiente, existe a proposta da municipalização do serviço e da instituição da tarifa zero – transporte coletivo gratuito. Tal medida seria um grande incentivo para o uso dos ônibus, provavelmente acabando com os congestionamentos diários, diminuindo muito a poluição do ar da nossa cidade, a queima de combustíveis fósseis geradores de gases do efeito estufa e o gasto com novas estradas, viadutos, túneis e manutenção das ruas cada vez mais tomadas por carros. Além do mais, propiciaria o acesso livre à cidade como um todo para a população inteira, não apenas para os privilegiados motoristas.

Obviamente, alguém precisa bancar salários dos motoristas, manutenção, frota, combustível, etc. Porém, assim como a saúde e a educação públicas, esse serviço poderia ser pago indiretamente pela população através dos impostos. Mas isso não mudaria a situação caso não fossem instituídos impostos graduais, relativos à renda de cada família. Assim, quem tem muito pagaria muito; quem não tem, não paga. Todos teriam acesso pleno à cidade e uma nova política de redistribuição de renda seria implantada, fomentando justiça social. Existem outras opções: tributação sobre combustível e carros ou sobre os maiores geradores de tráfego, como indústrias, comércio e shopping centers, que também se beneficiariam do livre trânsito dos trabalhadores e demais habitantes da cidade.

A ideia parece utópica, mas ela já foi implementada e bem-sucedida em muitas cidades no mundo todo. Hasselt, na Bélgica, foi a primeira cidade do mundo a possuir passe livre em todas as suas linhas de ônibus, em 1996. Em dez anos, o uso de ônibus aumentou mais de 13 vezes e atualmente Hasselt possui poucos carros nas ruas (13x menos), mas muitos ônibus e bicicletas. Até na cidade de São Paulo, no início da década de 90, houve tarifa zero em alguns bairros da cidade, durante o governo de Luiza Erundina, à época do PT, mas que não foi mantido pelo governo que se seguiu, de Paulo Maluf.

A tarifa zero é viável e altamente positiva para a sociedade como um todo, tanto em termos sociais, visto que propicia a redistribuição de renda e torna real o direito de ir e vir, garantido na nossa constituição, quanto em termos de sustentabilidade, pois o ônibus é um meio de transporte muito mais eficiente, que polui menos e diminui nosso impacto no meio-ambiente. A sua implementação depende, basicamente, de aprovação popular. Se a cidade insistir, os políticos terão que aderir à causa.

Por uma vida sem catracas!

Mais informações:
http://tarifazero.org

http://lataofloripa.libertar.org

http://twitter.com/lataofloripa



14 de março de 2010

Love is a duel

"Emotionlessly she kissed me in the vineyard and walked off down the row. We turned at a dozen paces, for love is a duel, and looked at each other for the last time". (On the road - Jack Kerouac)

4 de fevereiro de 2010

FSM10: um outro mundo é possível

De 25 a 29 de janeiro de 2010, estive no Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre e nas cidades vizinhas. Para quem não sabe, o FSM é um dos maiores eventos da esquerda do mundo, senão o maior. Ele surgiu em 2001 com o tema "um outro mundo é possível", que na época falava diretamente da luta dos movimentos populares e de esquerda para criar uma alternativa à política neoliberal, que era predominante em todo o mundo. Todo ano o Fórum reúne movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, sindicatos, jornalistas, estudantes, intelectuais e sonhadores; no ano passado houve um grande evento unificado, na Amazônia, e este ano haverá eventos espalhados por diversos lugares do mundo - o de Porto Alegre foi apenas um deles.

O Fórum, que já chegou a reunir 200 mil pessoas de mais de 100 nacionalidades nas edições unificadas, contou com cerca de 30 mil pessoas na grande Porto Alegre. Marcando os seus 10 anos, ele voltou à cidade onde se originou e buscou analisar o que se conquistou e para onde ele caminha agora, que objetivos deve ter e que estratégias tomar. Dentre os presentes esse ano, podemos citar o presidente Lula, as (pré) candidatas Dilma Roussef e Marina Silva, o ministro Tarso Genro, João Pedro Stédile, do MST e o sociólogo Boaventura de Souza Santos, entre tantos outros. Porém, seria muito míope caracterizar o Fórum por seus palestrantes: a relevância do evento é a reunião de milhares de pessoas comprometidas com a mudança social; centenas de organizações compartilhando informação sobre suas lutas, suas dificuldades e suas conquistas; centenas de atividades alternativas e abertas, programadas pelos próprios participantes; enfim, a multiplicidade de ideias e experiências é que faz a força do FSM e o tornou tão bem-sucedido.

Algumas coisas me chamaram bastante a atenção:

Acampamento Intercontinental da Juventude (AIJ)

Já é uma tradição do Fórum o Acampamento Intercontinental da Juventude: um local barato para ficar durante a semana do evento e uma experiência muito interessante em si mesma. Mais que apenas um camping, no AIJ acontecem oficinas, debates, palestras e shows (inclusive, foram mais de 100 shows no FSM, incluindo O teatro mágico, Os mutantes, Nação Zumbi e Marcelo D2). Dividido em campos temáticos, como o Espaço de Saúde Mercedes Sosa, a cidade do Hip-Hop e a Aldeia da Paz, cada qual com suas atividades específicas, o AIJ reproduz o espírito do FSM: um espaço aberto e livre, de organização democrática e horizontal.

Mas um grande problema merece nota: o AIJ ficava incrivelmente longe dos eventos, especialmente de Porto Alegre (demorava cerca de 2 horas para ir até a cidade, pegando um ônibus e um trem). Assim, os acampados (na maioria jovens) ficaram isolados de muitos eventos. O primeiro ônibus saía do acampamento por volta das 8 horas e levava até a estação de trem, por meio do qual se ia para Porto Alegre. Chegava-se na cidade por volta das 10 horas, enquanto as principais mesas de palestras começavam às 9 horas da manhã!

Muitas bandeiras, diversas lutas

Quando o Fórum surgiu, ele tinha um alvo principal: a política econômica do neoliberalismo. De fato, historicamente a esquerda luta contra um inimigo apenas, o capitalismo, o considerando a fonte dos males e problemas da sociedade. Felizmente, essa abordagem evoluiu para uma mais completa, que enxerga outros problemas da sociedade que ultrapassam a desigualdade econômica gerada pelo capitalismo, e o FSM hoje é o encontro de uma infinidade de bandeiras positivas. No primeiro dia do encontro, houve uma grande marcha unificada com todos os movimentos, os partidos, os sindicatos e as ONGs. Uma profusão de lutas importantes. Além de críticos do capitalismo, havia apoiadores dos direitos humanos, defensores da igualdade racial, da igualdade entre os sexos, dos direitos dos quilombolas, dos direitos dos indígenas, da laicidade do Estado e do respeito entre as religiões, do movimento LGBT, da natureza, da liberação animal, da reforma agrária, da reforma urbana, da legalização das drogas leves, das práticas de Economia Solidária e ainda outros. Todos por suas causas e pela causa global contra a opressão, a desigualdade e por um mundo melhor.

Socialismo do século XXI ou Esquerda de Vanguarda?

Como sabemos, houve aqui na América Latina nos últimos anos um fortalecimento da esquerda, através da eleição de diversos grupos políticos progressistas. Alguns desses, como o de Hugo Chavez e de Evo Morales, dizem estar caminhando para o "socialismo do século XXI". Esse novo socialismo se propõe a renovar as centenárias ideias de Marx e outros teóricos e, principalmente, evitar os erros cometidos pelos países que buscaram o socialismo durante o século XX - a burocratização, o autoritarismo, a perseguição, o genocídio, o desrespeito a grupos minoritários, o descaso com a natureza, etc. Certamente é do direito desses governos buscarem a sociedade que quiserem e a nomearem como quiserem, se os seus povos os apoiarem. Porém, o que notei em alguns palestrantes do Fórum, como no sociólogo português Boaventura, foi uma tentativa de aglutinar todas as bandeiras ali levantadas e juntá-las no conceito "socialismo do século XXI", o que é uma desonestidade com seus proponentes - nem só de socialismo vive a esquerda; havia no fórum social-democratas, anarquistas, pessoas alinhadas a outras ideologias e pessoas não alinhadas a nenhuma. A esquerda moderna deve apoiar as diversas lutas encontradas no Fórum, pois são questões importantes na busca por uma sociedade mais justa, igualitária, livre e fraterna, mas não precisa adotar o nome de socialismo - e talvez nem deva! A maior parte da sociedade tem uma opinião negativa do que é o socialismo, em parte por toda a propaganda contrária a esse sistema, mas principalmente por todo o mal que já se fez em seu nome. Não devemos correr o risco de ter ideias tão boas, como as encontradas nos movimentos do FSM, manchadas por tal associação. Socialismo do século XXI pretende não cometer os erros do passado e inovar? Pois inove-se também seu nome, e assim o caminho está livre para criar um outro mundo possível.

O que o FSM deve ser

Muito se discutiu, em especial nas mesas de abertura e encerramento, sobre que rumos os próximos Fóruns devem tomar. Por um lado, alguns argumentam que o FSM deveria buscar uma unidade em torno de algumas questões para se posicionar institucionalmente e poder ter uma influência maior nos rumos da sociedade, já que ele é a maior reunião de diferentes setores da esquerda. Nesse ponto de vista, o Fórum tem se tornado um fim em si mesmo, uma semana em que há muitos debates e ideias, mas que acaba sem uma conclusão e por isso não ajuda a construção de "um outro mundo possível" tanto quando poderia. Por outro lado, argumentaram muitos, a força e a importância do FSM é a sua própria multiplicidade, que seria ameaçada na busca de um consenso; algumas opiniões poderiam ser deixadas de lado e ele se tornaria uma instituição burocratizada e pouco atrante para alguns setores - o que não é difícil de imaginar, quando se tem em mente que lá se encontra desde anarquistas a partidos que não buscam nenhuma revolução, apenas reformas na sociedade. Assim, é essencial manter a pluralidade de ideias e práticas dentro do Fórum. O FSM pensa outros mundos possíveis; a luta política por outro determinado mundo é necessária, mas se dá em outros locais, específicos para tal feitio.

Lula no FSM10

Um dos eventos do FSM se chamava "Diálogos com o presidente Lula", no qual supostamente o presidente faria um discurso e responderia questões dos movimentos sociais. Era pra começar às 18h, mas Lula só chegou 20h30. E o mais surpreendente é que as sete mil pessoas que lotaram o estádio Gigantinho, de Porto Alegre, esperaram todo esse tempo cantando músicas que saudavam o político: "olê / olê olê olá / Lula / Lula!" e "Lula, / guerreiro / do povo brasileiro!". A plateia não era uma amostra balanceada das pessoas do Fórum, que tem muita gente criticando o governo Lula, mas estava repleta de membros dos partidos da base aliada do governo e dos sindicatos, o que explica tamanha popularidade. Ao apresentar o presidente, o representante da organização do FSM aproveitou para fazer 3 perguntas provocativas a respeito da COP15, da situação no Haiti e do PNDH-3, porém Lula não as respondeu diretamente, embora tenha tocado nos três assuntos. A fala do presidente foi muito alinhada às opiniões mais expressas no FSM: defesa de minorias, exaltação dos programas sociais, crítica ao sistema neoliberal, aos órgãos financeiros mundiais e ao Fórum Econômico Mundial de Davos. Também Lula falou muito de solidariedade ao Haiti, fazendo uma defesa do papel das tropas brasileiras que ocupam o país em Missão de Paz da ONU (Minustah). Apesar disso, dois pontos foram negativos em sua fala: primeiro o presidente defendeu o auxílio da Embrapa à plantação na savana africana, para que os países africanos possam se tornar exportadores - o que significa desmatamento da savana para o plantio de monoculturas, que danificam o solo e geram renda para os grandes donos de terra; segundo, Lula se orgulhou de não ter rompido com o FMI, ter pagado as dívidas brasileiras com o órgão e agora estar emprestando dinheiro para ele - o que significa que países mais pobres que o Brasil agora estarão emprestando dinheiro nosso com juros altos; passamos de explorados a exploradores. Diante dessas gafes, do atraso absurdo, da inexistência do diálogo que o nome do evento sugeriu e da esquiva às perguntas feitas pelo representante do FSM, chegou a ser assustador ver a festa que a plateia fez para o presidente, o tratando como um popstar e não com o ceticismo e criticidade com que os políticos devem ser julgados.


Alguns sites bons para ler mais sobre o Fórum:
site do FSM10, site do AIJ, cobertura Caros Amigos

17 de janeiro de 2010

Na balada III

"― Outra coisa ― disse Clémence. ― A meu ver, a grande divisão do mundo, bem, à parte todo esse negócio de classes sociais, a grande divisão do mundo é entre os que vão às festas e os que não vão. E esta divisão da humanidade, que data da época do colégio, persiste toda a vida sob outras formas.
―
Eu não era convidado para as festas."
(Como me tornei estúpido, de Martin Page)

Na balada II

Tunts tunts tunts tun!
João pensava consigo mesmo que não podia ser o único ali que não estava se divertindo, então escreveu um cartão-convite-protesto:

"Aceito uma conversa não-falsa, não-banal e sem a pretensão de parecer cool."

Estendia o cartão pra lá e pra cá. "Só tem dois jeitos de gostar disso aqui: um é estar muito bêbado e o outro eu não sei", gracejou ele uma vez, duas, três. Por fim, desistiu.
Tunts!

Não que as pessoas do lugar fossem incapazes de uma conversa verdadeira.
Tunts!

Não que elas não se interessassem por assuntos relevantes e inteligentes.
Tunts!

João acabou concluindo que, de fato, a culpa é do ambiente. Lá não é o lugar. Aquele lugar é pra outra coisa. E ele até descobriu para quê, mas estava bêbado demais pra lembrar o que era no outro dia.
Tun!

16 de janeiro de 2010

Na balada I

Tunts tunts tunts tun!
João tanto olhava de um lado para o outro, ali sentado, que ela resolveu perguntar (e, afinal de contas, por que não fazê-lo?):
― Tá esperando alguém?
Ele se sentiu triunfante ao responder:
― A vida toda.
Aí a coisa já desandou de vez. Em instantes o semblante dela percorreu sorriso-simpático, surpresa-desagradável, comida-fora-da-validade e revira-os-olhos; assim ela se foi.

João chegara a acreditar que ela diria:
― E como você sabe que ainda não encontrou?
Ao que ele responderia:
― É exatamente a pergunta que venho me fazendo há segundos.

João não gosta de baladas.
Tunts tunts tunts tun!

4 de janeiro de 2010

Metablogagem II

Tenho aqui a evolução dos meus delírios, desde 2008. E que vergonha a gente sente das besteiras que escreveu no passado! Só não sente das besteiras do presente.

A esse comportamento irracional nós damos o nome de "opinião formada". Sorte que passa.

Metablogagem I

O sonho de todo blogueiro é ser lido por mais que apenas seus conhecidos. Mas isso requer um salto de qualidade absurdo. É a diferença entre as 28 horas de gravação de você engatinhando - que família e amigos adoram - e "O poderoso chefão".

Minha esperança é que tem gente que gosta até de "Bud, O Cão Amigo".

12 de dezembro de 2009

Prokarya

E quem sabe se para bactérias nós não somos planetas?
E quem sabe se as leis da física delas não descrevem nosso comportamento com perfeição?


¹: A palavra planeta vem do que em grego significa "andarilho", pois quando primeiro se viu esses corpos no céu, notou-se que eles vagavam por aí, aparentemente a seu bel-prazer. Assim como a gente.

10 de dezembro de 2009

Heresia I

A humildade é das virtudes a menor.

14 de julho de 2009

Do valor da internet II

TED talks são apresentações de até 18 minutos que acontecem nas conferências do TED, cujo lema é Ideas worth spreading (algo como "Ideias que se vale a pena difundir"). A sigla significa Tecnologia, Entretenimento e Design, porém o escopo atual da iniciativa é certamente mais abrangente, incluindo qualquer ideia que se mostre importante e interessante.

Os convidados são os mais ilustres possível: Isabel Allende, escritora parente de Salvador Allende; Chris Anderson, escritor de "A cauda longa" e editor da revista WIRED; Bono Vox, vocalista do U2 e ativista; Richard Dawkins, biólogo evolucionista e divulgador da ciência; Bill Clinton, ex-presidente americano; Dan Dennett, filósofo e cientista; Jared Diamond, intelectual multidisciplinar e ganhador do Pulitzer por "Armas, germes e aço"; Peter Gabriel, cantor e ativista; Bill Gates, criador da Microsoft e filantropo; Al Gore, político e ambientalista; Brian Greene, físico e divulgador da ciência; Stephen Hawking, físico e divulgador da ciência; Chris Jordan, o "fotógrafo dos excessos"; Marvin Minsky, pioneiro da Inteligência Artificial; Vik Muniz, artista brasileiro inovador; Michelle Obama, primeira-dama dos EUA; Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google; Steven Pinker, maior divulgador da psicologia evolucionista; Vilayanur Ramachandran, neurologista e escritor; Adam Savage, apresentador do programa MythBusters; Philippe Starck, designer; Jill Taylor, escritora de "A cientista que curou seu próprio cérebro"; Craig Venter, pioneiro no mapeamento do genoma humano; James Watson, co-descobridor do DNA; Edward O. Wilson, biólogo e escritor; e tantos outros. (Essa seleção foi minha, não se espera que você conheça todos ou a maioria. Eu certamente deixei muita gente interessante de lado por não saber quem é. Você pode ver a lista completa aqui). Enfim, músicos, artistas, pacifistas, inovadores, cientistas, políticos, ativistas, escritores; todos visionários que acreditam no poder de mudança das ideias, na busca por um mundo melhor.


E, recentemente, eles expandiram grandemente o universo abordado pelos TED talks — fizeram versões legendadas de boa parte das palestras. O trabalho é feito por voluntários do mundo todo — inclusive, se você souber inglês e quiser ajudar essa iniciativa que certamente vale a pena, isso é bem vindo. Elas podem ser vistas com legendas em português brasileiro aqui. Quem sabe Caio Graco devesse ter dito: "As ideias não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. As ideias só mudam as pessoas".

http://www.ted.com

13 de julho de 2009

Do valor da internet I

No Irã, uma eleição supostamente forjada em prol do ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad fez com que grande parte da população se rebelasse. O Estado ardilosamente tentou impedir o acesso iraniano aos principais sites de comunicação, o único local de livre-pensar-gritar dentro de uma teocracia ditatorial onde um líder religioso controla mídia e governo.

Facebook, Twitter e YouTube formando uma rede aberta e livre, onde a maioria dos jovens do Irã (que são metade da população) pode protestar contra o regime que não os agrada nem um pouco. As manifestações contra a eleição foram todas arranjadas pela internet; a denúncia ao exterior está lá, nos Facebooks. O Irã, com a 18ª maior população do mundo (70 milhões de habitantes), é o 3° país com mais usuários de blogs. A campanha "Where is my vote?" ("Cadê o meu voto?") saiu sorrateiramente dos teclados, sob nomes falsos, e alcançou as redes de televisão no mundo todo. Em uma sociedade sem mídia independente, onde liberdades civis básicas são ignoradas e a dissidência é punida com tortura e morte, a voz humana ainda é incalável.

22 de maio de 2009

Seja razoável, peça o impossível

Cinco perguntas para nortear meus esforços nesta vida:

Por que e como existe algo ao invés do nada?

Como a vida surgiu na Terra?

Quão frequente é a vida no Cosmos?

Como criar e manter uma sociedade livre, justa e feliz?

Nós nunca vamos aprender?

A ordem não é significativa. E a minha vida é uma só.

3 de maio de 2009

Ataraxia

1. (Filosofia) A prática da imperturbalidade como meio de alcançar a felicidade; um prazer que vem da mente em paz.

20 de abril de 2009

Imagine

Será que as pessoas nunca pararam pra prestar atenção na letra de Imagine, do John Lennon? Aquilo é heresia pura! Se eu fosse um governante ou um líder religioso, eu suaria frio ao ouvir qualquer menção a esse mundo idílico.


Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nem inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine que não haver nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só

Imagine que não haver posses
Eu me pergunto se você consegue
Sem a necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens

Imagine todas as pessoas
Partilhando todo o mundo

Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo será como um só



E que bom que eu não sou um governante e/ou um líder religioso (às vezes as coisas andam juntas, o que é pior ainda). Não sei se minha consciência me deixaria dormir à noite!

17 de abril de 2009

Gênesis

Eu sou ateu. Isto é, não creio ou não tenho fé em Deus ou deuses. As justificativas para essa posição se baseiam todas na ausência de provas da existência de algo sobrenatural, extra-físico, divino. Alguém poderia argumentar que eu também não posso provar que deus(es) não existe(m), e eu responderia que, ainda assim, não vejo por que eu deva crer em deus(es). Tipicamente, o ateu retruca dizendo "também não posso provar que o Papai Noel não existe, mas isso não me impele a crer no bom velhinho, assim como você não acredita". O mesmo pode ser dito do coelhinho da Páscoa, do ET de Varginha, de unicórnios, dragões, super-heróis, etc. A questão é simples: sem prova, sem crença. Mas será mesmo certo afirmar que não existe nenhuma prova da existência de Deus?

Há muitas supostas provas de que deus(es) existe(m). A grande maioria, no mínimo — eu diria todas —, não consegue passar pelo escrutínio da lógica ou dos fatos. Exemplifico:

a) Todas as civilizações desenvolveram crenças em Deus ou deuses. Existem pesquisas que mostram que ter fé aumenta as chances de cura de um paciente. Existe uma região do cérebro que, quando estimulada, geralmente provoca sentimentos religiosos¹.
Logo, Deus existe.

b) A vida existe no planeta Terra.
A vida não pode surgir sozinha.
Então a vida foi criada.
Logo, Deus existe, pois criou a vida.

No primeiro caso, temos exemplos do que é chamado de non sequitur, ou seja, a conclusão não se segue necessariamente da premissa, do fato inicial. É possível que todas as civilizações tenham desenvolvido uma crença em algo que não existe, por exemplo, até porque deuses são um conforto psicológico em momentos difíceis e uma explicação para o desconhecido. Coisas universais.

O segundo caso é diferente. Uma das premissas é que a vida não pode surgir sozinha, o que não é comprovado e vai contra algumas evidências da ciência atual. Analisando o cosmos, percebemos que a matéria orgânica, que compõe os seres vivos que conhecemos, é abundante. Sabemos que existem seres que conseguem viver em ambientes extremos, com temperaturas de até 100°C, pHs que variam de 2 a 12 (muito ácido e muito básico), e pressões muito altas: as bactérias extremófilas.

Mas a maior evidência para o surgimento autônomo da vida são experiências como a de Urey-Miller. Esses cientistas, em 1952, tentaram recriar o ambiente terrestre de 3 bilhões de anos atrás, quando havia muita amônia, gás hidrogênio, gás metano e água. Misturando esses compostos e incidindo raios elétricos neles, como ocorria em larga escala na Terra primitiva, eles foram capazes de criar vários aminoácidos, material que forma as proteínas, que por sua vez formam todas as formas de vida que conhecemos. Bastaria surgir um replicador, algo que criasse mecanicamente cópias de si mesmo, para surgir a vida primitiva que evoluiria e poderia chegar a níveis de complexidade como o nosso ou maiores. A experiência vem sendo refeita e melhorada até os dias atuais, com resultados parecidos. E nada disso precisa de um deus.

O que dizer, porém, de tal argumento:

c) O Universo existe.
Se algo existe, então foi criado ou sempre existiu.
Sempre ter existido não é algo coerente.
Logo, Deus existe e criou o Universo.

O Universo de fato existe. Parece certo que tudo que existe precisa ou ter sido criado, ou sempre ter existido. Mas como pode algo existir desde sempre? Se tivesse surgido em algum momento, teria sido criado. E existir sem nunca ter surgido não parece uma alternativa lógica. Nesse momento o teísta ri satisfeito e diz: "Aí está a prova de que Deus existe. Precisamos de Deus para explicar por que existe algo ao invés do nada."

O ateu, como que em desespero, lança um contra-argumento raso: "Se Deus criou o Universo, quem criou Deus? E se Deus não precisa ter sido criado, por que o Universo precisa?" Tudo bem. Então Deus não explica a questão. Tampouco o ateu a explica. Voltamos à estaca zero.

Por que existe algo? Como existe alguma coisa?

A física moderna nos dá certas indicações, mas nenhuma resposta concreta. Precisamos lembrar que a ciência está sempre buscando as respostas, mas nunca terá verdades definitivas. Ela é intrinsicamente mutante, pois surgem novos dados e novas teorias. Sua merecida credibilidade vem da sua capacidade de perceber o próprio erro ou simplificação e de se consertar para chegar mais perto da verdade. O que ela diz?

O Universo teria surgido com o Big Bang, há cerca de 14 bilhões de anos. Toda a matéria estava em um só ponto e começou a se expandir. O tempo não existia antes do Big Bang, ele surgiu junto com a explosão. Perguntar o que havia antes disso é perguntar o que tem ao norte do pólo norte, disse certa vez o físico Stephen Hawking.
Porém, como surgiu aquele pontinho com matéria no instante do Big Bang? Existem especulações: esse pode ser só um dos muitos ou infinitos Universos existentes; ou a gravidade reuniu toda a matéria do Universo passado e houve este Big Bang, um de infinitos; entre outras, que podem exigir um conhecimento maior de física e matemática. Nada, porém, explica como pode existir algo ao invés do nada.

E agora? Me permitam uma digressão. Primeiro para 1543, quando Copérnico publicou um livro onde defendia que a Terra não era o centro do Universo, e sim o Sol, ideia que contrariava a visão religiosa e altamente antropocêntrica da época. Um grande tapa na presunção humana. Não seria o primeiro que a ciência nos deu. Também Darwin, quando publicou "A origem das espécies" há 150 anos, nos trouxe a humildade de entender que não somos seres especiais criados por uma divindade, destinados a controlar todos os outros. Somos só outro macaco sentado num galho da árvore da vida.

Aumentando nosso conhecimento, acabamos sendo forçados a aumentar nossa sabedoria. Aparentemente, os fatos não se preocupam muito com nosso ego. Cito essas coisas para levantar uma outra hipótese no caso da existência do Universo, ou da existência de alguma coisa. Uma ideia razoavelmente antiga que meu amigo Rafael chamou de hipótese arracional. "A" é um prefixo grego que exprime negação. Não-racional é diferente de irracional, pois o irracional contraria a razão. O arracional está além dela. A argumentação é mais ou menos assim:

Se o ser humano evoluiu através da seleção natural e se nossa capacidade mental for fruto do nosso sistema nervoso, não de uma alma — seja lá o que isso for —, também nossa mente evoluiu pelo método darwinista. Assim como nossos dentes não são capazes de triturar aço, mas davam conta do serviço nas condições-padrão da nossa vida evolutiva, também nossa mente — com todas as suas funções, incluindo a análise do que é racional, do que faz sentido — só foi até o necessário: analisar e entender as condições-padrão da nossa vida evolutiva. Talvez nossa racionalidade seja simplesmente rasa demais, talvez nossa mente não tenha a capacidade de julgar o que pode ou não acontecer em situações extremas ou simplesmente em situações fora do usual, entre elas o surgimento ou a existência do Universo. Nem ter sido criado, nem ter sempre existido, mas algo arracional, uma resposta alternativa. Como enxergar mais que nossas três dimensões usuais, algo simplesmente além da compreensão da mente do famigerado Homo sapiens. Não vai fazer sentido e pronto.

Assim como foi com o heliocentrismo e o darwinismo, é difícil aceitar isso. Parece nos roubar de algo que tanto prezávamos: nossa razão. Porém, vale ressaltar que, sendo nossa mente assim falha ou não, quando o objetivo é buscar a verdade, não há por que abandonar a racionalidade. Se a razão não pode nos levar à Verdade absoluta, ela certamente é quem pode nos aproximar mais dela. Toda nossa ciência é testemunha disso. Quem a fé pode chamar pra depôr?



¹: quem se interessou por isso, pode pesquisar por Michael Persinger ou estimulação transcraniana.
Como o pensamento ocorre com as sinapses do cérebro, ou seja, pequenas descargas elétricas entre os neurônios, e como as áreas do cérebro são razoavelmente especializadas em diferentes funções, é possível estimular áreas do cérebro com campos magnéticos bem colocados e analisar sua(s) função(ões). É quase como se houvesse uma área ligada ao pensamento religioso, embora o lobo temporal esquerdo tenha várias outras funções e a religiosidade não se manifeste em todas as pessoas.

30 de março de 2009

http://www.academicearth.org — Site que organiza as aulas diversas que universidades entre as mais conceituadas do mundo disponibilizam na internet gratuitamente, conforme já foi falado aqui nesse blog. Quer dizer, agora está mais fácil ainda.