A reunião dos velhinhos na praça para o dominó de cada dia. “Caí em um wormhole¹ e voltei no tempo”. Bom, não exatamente. Ao fundo, a gritaria melancólica da cidade de médio porte no país subdesenvolvido, junto aos prédios de riqueza e modernidade em uma corrida ao céu, provavam que eu continuava nesta época doida.
Ainda assim, o jogo paciente daqueles que abdicaram ao século XXI; um refúgio onde os relógios permaneceram funcionais, contrariando a incansável aceleração dos nossos. Ali, a guerra é paz, como imaginou Orwell²: sua guerra é de minorias, é dissidente; porém, é apenas a calma em seus olhos, a risada verdadeira da piada sobre um político honesto ou o bêbado caricato.
Meu alter-ego revolucionário e engajado captou em um instante o protesto que se via: no coração da cidade, aquele grupo subversivo jogava tranqüilo, conversava sobre trivialidades, sem metas nem horários. E dizem que os jovens é que são rebeldes!
¹Pausa para a ciência: Buracos de minhoca, mais conhecidos como wormholes, são idealizações teóricas — isto é, devaneios não provados de cientistas — que permitiriam viagens no tempo, porque seriam atalhos no espaço, como um túnel por baixo de uma alta montanha, que nos permitiria passar em um tempo muito menor. Grande distância em pouco tempo significa velocidade enorme (v = d/t), até maior que a da luz, proporcionando a possível volta no tempo.
²Pausa para a cultura: George Orwell, no livro 1984, criou uma sociedade extremamente reprimida pelo Governo. Este tinha três lemas: Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força. É uma demonstração do duplipensar, a capacidade de acreditar em duas coisas contraditórias, que livrava o Estado opressor da revolta popular.
24 de agosto de 2008
23 de agosto de 2008
A luta midiática
A revista Veja publicou, semana passada, uma matéria sofrível sobre a ideologização do ensino no País, abertamente reacionária e panfletária. Aqui: http://veja.abril.com.br/200808/p_076.shtml
Porém, não sei nem se é o caso de ficar irritado com a parcialidade crescente da revista. O que a reportagem nos mostra é, na verdade, os neoconservadores desesperados, clamando aos leitores direitistas da Veja que reclamem nas escolas pela exposição sobre as verdades do que eles defendem. Suas críticas são fraquíssimas, emboladas até. Qualquer estudante ou pessoa interessada nos assuntos atuais pode rebatê-las. É incrível como toda semana ainda lê-se comentários como "agradeço à revista pela imparcialidade e por mostrar a verdade brasileira" etc. etc. Concordando ou não, é impossível defender que suas reportagens são justas! "Leu na Veja? Azar o seu!"
Aqui, algumas respostas interessantes à matéria:
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/o-jornalismo-medieval-de-veja/
http://clioinsone.blogspot.com/2008/08/educao-brasileira-sob-tica-de-veja.html
Porém, não sei nem se é o caso de ficar irritado com a parcialidade crescente da revista. O que a reportagem nos mostra é, na verdade, os neoconservadores desesperados, clamando aos leitores direitistas da Veja que reclamem nas escolas pela exposição sobre as verdades do que eles defendem. Suas críticas são fraquíssimas, emboladas até. Qualquer estudante ou pessoa interessada nos assuntos atuais pode rebatê-las. É incrível como toda semana ainda lê-se comentários como "agradeço à revista pela imparcialidade e por mostrar a verdade brasileira" etc. etc. Concordando ou não, é impossível defender que suas reportagens são justas! "Leu na Veja? Azar o seu!"
Aqui, algumas respostas interessantes à matéria:
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/o-jornalismo-medieval-de-veja/
http://clioinsone.blogspot.com/2008/08/educao-brasileira-sob-tica-de-veja.html
18 de agosto de 2008
Batalha das citações I
Se Deus não existe, tudo é permitido. (Fiódor Dostoiévski)
Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível. (Albert Einstein)
Vitória: Einstein
Deus não joga dados. (Albert Einstein)
Buracos negros mostram que, não apenas Deus joga dados, mas ele às vezes nos confunde os jogando onde não podem ser vistos. (Stephen Hawking)
Vitória: Hawking
A vida seria trágica se não fosse engraçada. (Stephen Hawking)
Vida? Não venha me falar sobre vida. (Marvin, o andróide)
Vitória: Marvin
Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível. (Albert Einstein)
Vitória: Einstein
Deus não joga dados. (Albert Einstein)
Buracos negros mostram que, não apenas Deus joga dados, mas ele às vezes nos confunde os jogando onde não podem ser vistos. (Stephen Hawking)
Vitória: Hawking
A vida seria trágica se não fosse engraçada. (Stephen Hawking)
Vida? Não venha me falar sobre vida. (Marvin, o andróide)
Vitória: Marvin
12 de agosto de 2008
Versinhos do XXI
Nem redshifting, nem ruído de fundo,
Não impedem minha mente símea de duvidar
Que só surfamos na borda de uma explosão singular
Em qualquer canto sem referencial do mundo.
Não impedem minha mente símea de duvidar
Que só surfamos na borda de uma explosão singular
Em qualquer canto sem referencial do mundo.
24 de julho de 2008
A decepção de escrever
Escrever é triste. Passo a palavra para quem sabe, Ariano Suassuna:
“Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer tudo o que pretendi ao imaginá-la. E quem o consegue? A obra que se apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à vida, à riqueza, à contínua invenção da realidade; a segunda, porque depois de inventar sua obra — que não é senão uma tentativa de resposta domada, clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e selvagem — nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu no momento da criação".
“Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer tudo o que pretendi ao imaginá-la. E quem o consegue? A obra que se apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à vida, à riqueza, à contínua invenção da realidade; a segunda, porque depois de inventar sua obra — que não é senão uma tentativa de resposta domada, clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e selvagem — nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu no momento da criação".
8 de julho de 2008
“Uma das mais eloqüentes demonstrações da ilusão do self unificado foi dada pelos neurocientistas Michael Gazzaniga e Roger Sperry; eles mostraram que quando cirurgiões cortam o corpo caloso que une os hemisférios cerebrais, praticamente cortam o cérebro em dois, e cada hemisfério pode exercer o livre-arbítrio sem o conselho ou consentimento do outro. Mais desconcertante ainda é o fato de que o hemisfério esquerdo constantemente tece um relato coerente mas falso do comportamento escolhido sem seu conhecimento pelo hemisfério direito. Por exemplo, se um experimentador mostra de relance o comando “Ande” ao hemisfério direito (mantendo-o na parte do campo visual que só pode ser vista pelo hemisfério direito), a pessoa obedece à ordem e começa a sair andando da sala. Mas quando se pergunta à pessoa (especificamente, ao hemisfério esquerdo da pessoa) por que ela acaba de se levantar, ela responde, com toda a sinceridade, “para buscar uma Coca-Cola” — em vez de “eu não sei” ou “tive esse impulso”, ou ainda “vocês fazem testes comigo há anos desde que fiz a cirurgia, e às vezes me induzem a fazer coisas, mas não sei exatamente o que me pediram para fazer”. Analogamente, se for mostrada uma galinha ao hemisfério esquerdo do paciente e uma nevasca ao hemisfério direito, e ambos os hemisférios tiverem de selecionar uma imagem condizente com o que vêem (cada um usando uma mão diferente), o hemisfério esquerdo escolhe uma garra (corretamente), e o direito uma pá (também corretamente). Mas quando se pergunta ao hemisfério esquerdo por que a pessoa como um todo fez as duas escolhas, ele responde alegremente: “Ora, é simples: a garra da galinha é uma parte da galinha, e a pá é usada para limpar o galinheiro”.
“O assombroso é que não temos razão para pensar que o gerador de conversa fiada no hemisfério esquerdo do paciente está se comportando de modo diferente do nosso hemisfério esquerdo quando interpretamos as inclinações que emanam do resto de nosso cérebro. A mente consciente — o self ou alma — é uma forjadora de interpretações, e não o comandante-em-chefe”.
Trecho do livro “Tábula rasa”, de Steven Pinker.
“O assombroso é que não temos razão para pensar que o gerador de conversa fiada no hemisfério esquerdo do paciente está se comportando de modo diferente do nosso hemisfério esquerdo quando interpretamos as inclinações que emanam do resto de nosso cérebro. A mente consciente — o self ou alma — é uma forjadora de interpretações, e não o comandante-em-chefe”.
Trecho do livro “Tábula rasa”, de Steven Pinker.
4 de julho de 2008
O mundo é hipócrita
Por que todo mundo que diz "o problema é a educação deficiente que o povo recebe" — um dos maiores clichês da nossa época — se julga acima dessa afirmação e presume que não foi afetado por essa realidade?
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