12 de agosto de 2008

Versinhos do XXI

Nem redshifting, nem ruído de fundo,
Não impedem minha mente símea de duvidar
Que só surfamos na borda de uma explosão singular
Em qualquer canto sem referencial do mundo.

24 de julho de 2008

A decepção de escrever

Escrever é triste. Passo a palavra para quem sabe, Ariano Suassuna:

“Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer tudo o que pretendi ao imaginá-la. E quem o consegue? A obra que se apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à vida, à riqueza, à contínua invenção da realidade; a segunda, porque depois de inventar sua obra — que não é senão uma tentativa de resposta domada, clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e selvagem — nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu no momento da criação".

8 de julho de 2008

“Uma das mais eloqüentes demonstrações da ilusão do self unificado foi dada pelos neurocientistas Michael Gazzaniga e Roger Sperry; eles mostraram que quando cirurgiões cortam o corpo caloso que une os hemisférios cerebrais, praticamente cortam o cérebro em dois, e cada hemisfério pode exercer o livre-arbítrio sem o conselho ou consentimento do outro. Mais desconcertante ainda é o fato de que o hemisfério esquerdo constantemente tece um relato coerente mas falso do comportamento escolhido sem seu conhecimento pelo hemisfério direito. Por exemplo, se um experimentador mostra de relance o comando “Ande” ao hemisfério direito (mantendo-o na parte do campo visual que só pode ser vista pelo hemisfério direito), a pessoa obedece à ordem e começa a sair andando da sala. Mas quando se pergunta à pessoa (especificamente, ao hemisfério esquerdo da pessoa) por que ela acaba de se levantar, ela responde, com toda a sinceridade, “para buscar uma Coca-Cola” — em vez de “eu não sei” ou “tive esse impulso”, ou ainda “vocês fazem testes comigo há anos desde que fiz a cirurgia, e às vezes me induzem a fazer coisas, mas não sei exatamente o que me pediram para fazer”. Analogamente, se for mostrada uma galinha ao hemisfério esquerdo do paciente e uma nevasca ao hemisfério direito, e ambos os hemisférios tiverem de selecionar uma imagem condizente com o que vêem (cada um usando uma mão diferente), o hemisfério esquerdo escolhe uma garra (corretamente), e o direito uma pá (também corretamente). Mas quando se pergunta ao hemisfério esquerdo por que a pessoa como um todo fez as duas escolhas, ele responde alegremente: “Ora, é simples: a garra da galinha é uma parte da galinha, e a pá é usada para limpar o galinheiro”.

“O assombroso é que não temos razão para pensar que o gerador de conversa fiada no hemisfério esquerdo do paciente está se comportando de modo diferente do nosso hemisfério esquerdo quando interpretamos as inclinações que emanam do resto de nosso cérebro. A mente consciente — o
self ou alma — é uma forjadora de interpretações, e não o comandante-em-chefe”.

Trecho do livro “Tábula rasa”, de Steven Pinker.

4 de julho de 2008

O mundo é hipócrita

Por que todo mundo que diz "o problema é a educação deficiente que o povo recebe" — um dos maiores clichês da nossa época — se julga acima dessa afirmação e presume que não foi afetado por essa realidade?

24 de junho de 2008

O ceticismo e aplicações

O que é? Pra que é?
”O mundo assombrado por demônios” é um livro de Carl Sagan, um físico americano conhecido pela série Cosmos — não tão conhecida assim —, que trata principalmente da importância de sermos céticos na nossa vida. Em tempo: ceticismo é não acreditar em nada apenas porque foi dito, é buscar provas e ser fiel a elas. O livro é muito revelador (e eu posso emprestá-lo pra quem quiser).

A princípio, pode não parecer ser um grande ideal, talvez eu devesse estar escrevendo sobre compaixão ou cuidados com a higiene pessoal. Mas eu vejo o ceticismo como peça fundamental se quisermos fazer jus àquilo que sempre repetimos quando alguém tenta nos comparar a simples animais: mas nós somos racionais!

Buscar sempre a verdade e questionar tudo é quase a definição de racionalidade. Esse pensamento crítico é o que nos impulsiona; sem contestação dos pressupostos vigentes nós ainda estaríamos lutando com paus e pedras (embora essa comparação nos leve a pensar em muitas vidas que seriam salvas pela falta de tecnologia). Apesar de termos progredido muito, a verdade é que o ceticismo é muito pouco comum entre as pessoas até hoje. Parece que enquanto tivemos alguns gênios que nos deram tecnologia e ciência, a grande massa continuou parada no tempo.

Compare: enquanto viajamos ao espaço e estudamos partículas nos núcleos dos átomos, a maioria das pessoas acredita que “o pensamento positivo”, de algum modo, “cria uma energia que interfere no que está à sua volta e o Universo aí conspira para realizar seu desejo”. Isso é o que afirma “O segredo”, livro mais vendido no País ano passado. Além disso, temos inúmeros casos de pessoas enganadas por charlatães de todos os tipos: os que oferecem salvação divina, curas milagrosas, dinheiro fácil ou promessas políticas; temos também criadores de lendas urbanas, de teorias conspiratórias... enfim, a lista é enorme. Para não ser enganado, o melhor meio é o pensamento crítico, a aplicação do ceticismo.

A primeira coisa que pensei para exemplificar os privilégios dos céticos foi um tanto óbvia: a contestação da religião. É, no mínimo, o alvo mais fácil para um exame cuidadoso, já que seus dogmas são infundados e, mesmo assim, as religiões têm um grande impacto na sociedade. Porém, isso seria perda de tempo, porque milhares de pessoas já escreveram sobre isso, desde best-sellers a infinitos participantes da blogosfera. Eu vou comentar sobre nosso amor à Nação.

A falácia do patriotismo
Se Nelson Rodrigues tinha alguma razão ao afirmar que toda unanimidade é burra, era no caso da falácia do patriotismo. Qualquer um já presenciou, em uma discussão sobre basicamente qualquer assunto, essa frase proferida: “O problema é que o povo não é patriota! Se as pessoas dessem mais valor ao País, não estaríamos desse jeito”. Pessoalmente, não lembro de ter visto alguém importante contestando essa idéia publicamente; só nos pensamentos de alguns anarquistas. Ora, qual é o grande apelo do nacionalismo?

Vamos analisar racionalmente o que é o chamado patriotismo. Resumidamente, é o sentimento de amor e devoção à pátria e seus símbolos, como a bandeira e o hino. Mas o que são essas coisas? A pátria nada mais é que um pedaço de terra delimitado por um conjunto de linhas imaginárias, que divide as pessoas que antes eram iguais, pois todos nós somos verdadeiramente os mesmos, uma comunidade global de seres com as mesmas características gerais, independente da origem. Durante quase toda a vida da espécie nos organizamos por afinidade ou necessidade, até que alguns déspotas conseguiram governar grandes regiões e criaram as fronteiras, que agora imperam em todo o mundo.
Vale lembrar um estudo, conhecido como Robber's Cave e feito pelo psicólogo social Muzafer Sherif, que com uma equipe de psicólogos fez uma grande experiência com crianças em um acampamento, cujo objetivo maior era entender como a divisão em grupos afeta as pessoas. Resumindo, eles separaram os garotos em dois grupos e perceberam que surgiu uma grande antipatia entre eles, que se tornou cada vez mais expressiva, levando ao ódio e a brigas. Esse experimento é uma das bases da chamada Psicologia Social.

Estudando a História, é fácil perceber a verdade contida nesse estudo. A formação do mundo atual se deu através de sucessivas guerras entre povos com algo que os distinguisse: guerras entre pessoas de locais diferentes, guerras entre pessoas com religiões diferentes, guerras entre pessoas de condições financeiras diferentes. Nenhum ser humano deseja, por si só, morrer em uma guerra. Parece uma afirmação banal, mas um alienígena que chegasse à Terra certamente deduziria o contrário, visto que o globo nunca esteve inteiro livre de guerras. No século XX, não se passou um dia sem que algum humano tenha morrido em uma guerra. O que motiva as pessoas a lutar até a morte é, em boa parte dos casos, o patriotismo; esse sentimento que parece ser tão nobre, que nos faz tremer quando ouvimos críticas à nossa terra. Ele é tão nobre quanto as guerras que causa.

O chamado amor à pátria está por trás de todas as ditaduras por uma razão muito específica: quando todos estão com o patriotismo à flor da pele, tentar criticar o governo é uma heresia sem medida. Hitler bem o sabia! Seus discursos insuflavam em toda a população um grande sentimento de valor à Alemanha, e era isso que os motivava a lutar na pior guerra da Humanidade.

Mesmo se você acha que não se deixaria levar por esses motivos e jura que não odeia os argentinos, ainda há outros motivos para questionar a utilidade do patriotismo, como a verdade. Para muitos efeitos, ser patriota é preferir o que é do seu país só porque é do seu país, ignorando os fatos.
Temos como exemplo a eleição recente do Cristo Redentor como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Como assim? O Cristo não é nem o mais belo local do Brasil, que diremos do mundo todo? Fato é que ele foi eleito porque brasileiros se uniram e votaram incessantemente nele, sem ligar para o fato de que ele é simplesmente feio. Inclusive, estou com o ator Paulo César Pereio, que recentemente defendeu a demolição do monumento, mas isso é outra história.

Não é à toa que a instituição que preza tanto o amor à pátria é o Exército. Ele é um reduto ditatorial; as pessoas são obrigadas a se alistarem e obrigadas a jurarem amor à bandeira. Se, por acaso, você discordar disso e não quiser fazê-lo, você perde a chance de estudar em Universidades federais e tirar passaporte, além de outros direitos.

Essa é a razão do ceticismo, é abandonar os velhos conceitos e repensá-los. É freqüente descobrirmos que eles não são tão válidos quanto pareciam, por vezes retrógrados e estúpidos. O passado recebe um valor muitas vezes maior do que merece, e é nosso dever reconstruir as más fundações do passado para progredirmos. Vamos nos livrar dos maus hábitos herdados.



”Patriotismo (...) para quem manda nada mais é que uma ferramenta para alcançar seus objetivos de dinheiro e poder, enquanto para quem obedece significa renunciar sua dignidade humana, razão, consciência e submeter-se aos poderosos. (...) Patriotismo é escravidão.“ (Leon Tolstói)

23 de maio de 2008

Quando a linha tênue some

Em tempos de notícias(¹)(²) sempre muito de acordo com a imoralidade e maldade das FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, comecei a pensar sobre as linhas entre o certo e o errado na luta por ideais. Explico:

As FARC são grupos que surgiram nos anos 60 e lutavam para instaurar um governo socialista na Colômbia. Resumindo a história para o que me interessa aqui, elas começaram a ficar sem dinheiro para lutar e apelaram para seqüestros e associação com traficantes. Acho que dificilmente alguém vai defender tais táticas como válidas e positivas — embora eu tenha lá minhas dúvidas sobre a validade das informações que a gente recebe; afinal, o pessoal da mídia não é muito fã de movimentos de extrema esquerda. Acontece que seqüestrar civis e lucrar com a venda de cocaína não é legal, isso nos parece óbvio. O ponto de vista deles é de que a sociedade colombiana tinha sérios problemas de desigualdade social, só uns poucos tinham muito dinheiro enquanto a maioria vivia em condições de pobreza e a culpa era do governo e do sistema, então eles resolveram lutar. Isso pode algo justificar os atos deles?

O MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, é um movimento brasileiro que busca a reforma agrária, a redistribuição de terras para todos de modo justo. Bem sabemos que grande parte da terra está na mão de poucos oligarcas, que muitas vezes nem fazem uso da propriedade, mas não querem abrir mão de suas posses para a população que quer produzir. Agora, mesmo considerando a causa justa — como eu a considero —, é preciso analisar alguns modos mais extremos que o movimento usa para militar pela causa: invasão de propriedade e bloqueio de rodovias, por exemplo. À luz da Constituição, essas são infrações da Lei, e infrações devem ser punidas. Não me parece ser a mesma resolução se analisada pela luz do justo e ético.

Outro caso que se mostra muito revelador é a luta contra a Ditadura Militar no Brasil. Assim como nos outros dois exemplos, existia um ideal e as pessoas lutaram por ele contrariando a Lei. Em verdade, esse é o caso que mostra a confusão aqui, pois os militantes da época são considerados heróis hoje em dia e muitos de nossos políticos estavam entre eles, burlando a lei. José Dirceu participou do seqüestro de um embaixador americano(¹); Dilma Roussef era guerrilheira e afirma ter sido torturada(²); a lista de presos ou exilados contém inúmeras personalidades do País(³).

Quer dizer, por que nesse caso as pessoas são louvadas, enquanto FARC e MST são difamados constantemente na mídia? Se não são as leis, se não são os ideais, o que diferencia de verdade esses casos? E não digo só em termos da mídia, que acompanha o poder e também difamava quem lutava contra a Ditadura na época, mas em termos absolutos: como podemos discernir quem está certo nessas questões? O que é um parâmetro confiável? Será que nada feito por humanos merece tanta confiança? E se assim for, que devemos fazer: ignorar injustiças e sermos fiéis às leis vigentes, para não haver confusão ou ignorar as próprias leis e só nos basearmos nos ideais próprios?

3 de maio de 2008

Carta à criação

Aos incríveis seres que transformam estes sinais em pensamentos, exponho meus motivos:

De começo, fiz rodar no infinito o círculo perfeito em que as coisas aconteceriam, que vocês deram o nome pouco didático de tempo-espaço, expandido por matéria. Saibam: todos vocês entendem o que havia antes de, assim, surgir “tudo o que há”. É para o Universo assim como foi para cada um de vocês a eternidade que se passou antes de nascerem — nihil, nada. Como disse Stephen Hawking, que vocês devem conhecer, “perguntar o que veio antes do Big Bang é como perguntar o que existe ao sul do Pólo Sul”.

Com alguns cuidados básicos em fazer cargas, matéria que podia se unir de inúmeras formas possíveis e algumas forças além, tudo isso acabou dando certo. É evidente, porém, que não pensei em tudo isso na primeira tentativa. Foi um trabalho consideravelmente cansativo, com tentativas e pequenos acertos, algo como uma seleção natural de realidades — Universos — para enfim encontrar um resultado interessante. Entendam também que eu não tinha uma meta específica; isso seria fácil, eu posso criar qualquer coisa que imaginar — inclusive este é meu único “super-poder”. Não; fazer o que vocês são foi um projeto aleatório, e por isso mesmo desafiador. Sendo a única força exterior e podendo criar a bel-prazer, a única coisa que eu não conseguia era ver o acaso tirar de mim o peso da decisão. Saliento aqui que isso é apenas uma figura de linguagem para me entenderem; nada tenho com as sensações de vocês, que são apenas táticas evolutivas.

Assim, o tempo avançou: matéria se aglutinou, diferentes junções de cargas se espalharam por todo o espaço e, em seu planeta, começaram a se duplicar. O primeiro grande alerta que tive de meu sucesso foi o dia que sua espécie percebeu todo o processo que dera à luz vocês. É certo, existiram vários pensadores antes, mas suas conquistas eram subjetivas, pequenos fragmentos de verdade. A partir do momento em que compreenderam sua origem, vocês estavam aptos a compreender toda a vida. Era uma questão de tempo. Sobre a chamada seleção natural, é importante mencionar que nada tive com isso. Paradoxais criaturas vocês são; conseguem ver muito com tão pouco, mas não conseguem compreender metade do que vêem. Se dois seres lutam por recursos, um vence e assim faz mais réplicas de si, isso não é uma lei da natureza. Não é um capricho meu. Simplesmente é o que haveria de acontecer, não há segredo nisso. Como poderia a seleção natural não existir? É pura lógica, quem reproduz com mais aptidão vence. Equiparar isso com uma lei como a gravidade é quase um insulto.

Muito foi dito aí sobre mim. Desde o seu crescimento, sempre se especulou sobre meus afazeres e o que era mérito meu. Ora, nada aí dentro é meu. Toda a dança cósmica, qualquer evento que ocorreu ou ocorrerá é simplesmente baseado na natureza e nos seus efeitos quase aleatórios. A minha única participação é indireta, que foi dar início a tal. Dentre todos que falaram sobre a minha pessoa, ninguém sabia! Fui relegado simplesmente a respostas às melhores perguntas, a função de meu nome equivalia a “não sei”. Desnecessário então dizer que não se soube de mim nunca, e nem poderia ser sabido. O que seriam as orações e a fé, senão boas táticas para manter o equilíbrio mental?

Quanto à moral, nada tenho a dizer. Interessa-me muito ver do que vocês são capazes, prefiro seus loucos desvarios à pacata paz. Questões de bondade não me competem, todo o esforço por empatia e solidariedade que vejo em vocês depende só de sua própria vontade, se vocês as julgam tão importantes. Quem sabe provada minha não-interferência, vocês tenham mais sorte nessa busca, visto que as invocações de meu nome de nada serviram nesses longos anos.

Se nada que me interessa está fora do meu alcance, e já criei a aleatoriedade com vocês, seres que dominaram os fatos e agora comandam seu mundo, nada me resta a fazer. Tendo consciência do nada existente de fora, só cumpri meu único desejo em vocês, e agora tudo acaba. Deixarei de existir, e embora isso não faça diferença para vocês, os avisei. Todos os seus poetas sentiriam muito pressentindo eternamente que havia algo e eles nunca o souberam. A eternidade agora é de vocês, que são biólogos e podem entender a si mesmos. O passado foi meu, que fui apenas um físico ao criá-los e nada sei sobre a vida em si.



Do famigerado Deus.