24 de junho de 2008

O ceticismo e aplicações

O que é? Pra que é?
”O mundo assombrado por demônios” é um livro de Carl Sagan, um físico americano conhecido pela série Cosmos — não tão conhecida assim —, que trata principalmente da importância de sermos céticos na nossa vida. Em tempo: ceticismo é não acreditar em nada apenas porque foi dito, é buscar provas e ser fiel a elas. O livro é muito revelador (e eu posso emprestá-lo pra quem quiser).

A princípio, pode não parecer ser um grande ideal, talvez eu devesse estar escrevendo sobre compaixão ou cuidados com a higiene pessoal. Mas eu vejo o ceticismo como peça fundamental se quisermos fazer jus àquilo que sempre repetimos quando alguém tenta nos comparar a simples animais: mas nós somos racionais!

Buscar sempre a verdade e questionar tudo é quase a definição de racionalidade. Esse pensamento crítico é o que nos impulsiona; sem contestação dos pressupostos vigentes nós ainda estaríamos lutando com paus e pedras (embora essa comparação nos leve a pensar em muitas vidas que seriam salvas pela falta de tecnologia). Apesar de termos progredido muito, a verdade é que o ceticismo é muito pouco comum entre as pessoas até hoje. Parece que enquanto tivemos alguns gênios que nos deram tecnologia e ciência, a grande massa continuou parada no tempo.

Compare: enquanto viajamos ao espaço e estudamos partículas nos núcleos dos átomos, a maioria das pessoas acredita que “o pensamento positivo”, de algum modo, “cria uma energia que interfere no que está à sua volta e o Universo aí conspira para realizar seu desejo”. Isso é o que afirma “O segredo”, livro mais vendido no País ano passado. Além disso, temos inúmeros casos de pessoas enganadas por charlatães de todos os tipos: os que oferecem salvação divina, curas milagrosas, dinheiro fácil ou promessas políticas; temos também criadores de lendas urbanas, de teorias conspiratórias... enfim, a lista é enorme. Para não ser enganado, o melhor meio é o pensamento crítico, a aplicação do ceticismo.

A primeira coisa que pensei para exemplificar os privilégios dos céticos foi um tanto óbvia: a contestação da religião. É, no mínimo, o alvo mais fácil para um exame cuidadoso, já que seus dogmas são infundados e, mesmo assim, as religiões têm um grande impacto na sociedade. Porém, isso seria perda de tempo, porque milhares de pessoas já escreveram sobre isso, desde best-sellers a infinitos participantes da blogosfera. Eu vou comentar sobre nosso amor à Nação.

A falácia do patriotismo
Se Nelson Rodrigues tinha alguma razão ao afirmar que toda unanimidade é burra, era no caso da falácia do patriotismo. Qualquer um já presenciou, em uma discussão sobre basicamente qualquer assunto, essa frase proferida: “O problema é que o povo não é patriota! Se as pessoas dessem mais valor ao País, não estaríamos desse jeito”. Pessoalmente, não lembro de ter visto alguém importante contestando essa idéia publicamente; só nos pensamentos de alguns anarquistas. Ora, qual é o grande apelo do nacionalismo?

Vamos analisar racionalmente o que é o chamado patriotismo. Resumidamente, é o sentimento de amor e devoção à pátria e seus símbolos, como a bandeira e o hino. Mas o que são essas coisas? A pátria nada mais é que um pedaço de terra delimitado por um conjunto de linhas imaginárias, que divide as pessoas que antes eram iguais, pois todos nós somos verdadeiramente os mesmos, uma comunidade global de seres com as mesmas características gerais, independente da origem. Durante quase toda a vida da espécie nos organizamos por afinidade ou necessidade, até que alguns déspotas conseguiram governar grandes regiões e criaram as fronteiras, que agora imperam em todo o mundo.
Vale lembrar um estudo, conhecido como Robber's Cave e feito pelo psicólogo social Muzafer Sherif, que com uma equipe de psicólogos fez uma grande experiência com crianças em um acampamento, cujo objetivo maior era entender como a divisão em grupos afeta as pessoas. Resumindo, eles separaram os garotos em dois grupos e perceberam que surgiu uma grande antipatia entre eles, que se tornou cada vez mais expressiva, levando ao ódio e a brigas. Esse experimento é uma das bases da chamada Psicologia Social.

Estudando a História, é fácil perceber a verdade contida nesse estudo. A formação do mundo atual se deu através de sucessivas guerras entre povos com algo que os distinguisse: guerras entre pessoas de locais diferentes, guerras entre pessoas com religiões diferentes, guerras entre pessoas de condições financeiras diferentes. Nenhum ser humano deseja, por si só, morrer em uma guerra. Parece uma afirmação banal, mas um alienígena que chegasse à Terra certamente deduziria o contrário, visto que o globo nunca esteve inteiro livre de guerras. No século XX, não se passou um dia sem que algum humano tenha morrido em uma guerra. O que motiva as pessoas a lutar até a morte é, em boa parte dos casos, o patriotismo; esse sentimento que parece ser tão nobre, que nos faz tremer quando ouvimos críticas à nossa terra. Ele é tão nobre quanto as guerras que causa.

O chamado amor à pátria está por trás de todas as ditaduras por uma razão muito específica: quando todos estão com o patriotismo à flor da pele, tentar criticar o governo é uma heresia sem medida. Hitler bem o sabia! Seus discursos insuflavam em toda a população um grande sentimento de valor à Alemanha, e era isso que os motivava a lutar na pior guerra da Humanidade.

Mesmo se você acha que não se deixaria levar por esses motivos e jura que não odeia os argentinos, ainda há outros motivos para questionar a utilidade do patriotismo, como a verdade. Para muitos efeitos, ser patriota é preferir o que é do seu país só porque é do seu país, ignorando os fatos.
Temos como exemplo a eleição recente do Cristo Redentor como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Como assim? O Cristo não é nem o mais belo local do Brasil, que diremos do mundo todo? Fato é que ele foi eleito porque brasileiros se uniram e votaram incessantemente nele, sem ligar para o fato de que ele é simplesmente feio. Inclusive, estou com o ator Paulo César Pereio, que recentemente defendeu a demolição do monumento, mas isso é outra história.

Não é à toa que a instituição que preza tanto o amor à pátria é o Exército. Ele é um reduto ditatorial; as pessoas são obrigadas a se alistarem e obrigadas a jurarem amor à bandeira. Se, por acaso, você discordar disso e não quiser fazê-lo, você perde a chance de estudar em Universidades federais e tirar passaporte, além de outros direitos.

Essa é a razão do ceticismo, é abandonar os velhos conceitos e repensá-los. É freqüente descobrirmos que eles não são tão válidos quanto pareciam, por vezes retrógrados e estúpidos. O passado recebe um valor muitas vezes maior do que merece, e é nosso dever reconstruir as más fundações do passado para progredirmos. Vamos nos livrar dos maus hábitos herdados.



”Patriotismo (...) para quem manda nada mais é que uma ferramenta para alcançar seus objetivos de dinheiro e poder, enquanto para quem obedece significa renunciar sua dignidade humana, razão, consciência e submeter-se aos poderosos. (...) Patriotismo é escravidão.“ (Leon Tolstói)

23 de maio de 2008

Quando a linha tênue some

Em tempos de notícias(¹)(²) sempre muito de acordo com a imoralidade e maldade das FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, comecei a pensar sobre as linhas entre o certo e o errado na luta por ideais. Explico:

As FARC são grupos que surgiram nos anos 60 e lutavam para instaurar um governo socialista na Colômbia. Resumindo a história para o que me interessa aqui, elas começaram a ficar sem dinheiro para lutar e apelaram para seqüestros e associação com traficantes. Acho que dificilmente alguém vai defender tais táticas como válidas e positivas — embora eu tenha lá minhas dúvidas sobre a validade das informações que a gente recebe; afinal, o pessoal da mídia não é muito fã de movimentos de extrema esquerda. Acontece que seqüestrar civis e lucrar com a venda de cocaína não é legal, isso nos parece óbvio. O ponto de vista deles é de que a sociedade colombiana tinha sérios problemas de desigualdade social, só uns poucos tinham muito dinheiro enquanto a maioria vivia em condições de pobreza e a culpa era do governo e do sistema, então eles resolveram lutar. Isso pode algo justificar os atos deles?

O MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, é um movimento brasileiro que busca a reforma agrária, a redistribuição de terras para todos de modo justo. Bem sabemos que grande parte da terra está na mão de poucos oligarcas, que muitas vezes nem fazem uso da propriedade, mas não querem abrir mão de suas posses para a população que quer produzir. Agora, mesmo considerando a causa justa — como eu a considero —, é preciso analisar alguns modos mais extremos que o movimento usa para militar pela causa: invasão de propriedade e bloqueio de rodovias, por exemplo. À luz da Constituição, essas são infrações da Lei, e infrações devem ser punidas. Não me parece ser a mesma resolução se analisada pela luz do justo e ético.

Outro caso que se mostra muito revelador é a luta contra a Ditadura Militar no Brasil. Assim como nos outros dois exemplos, existia um ideal e as pessoas lutaram por ele contrariando a Lei. Em verdade, esse é o caso que mostra a confusão aqui, pois os militantes da época são considerados heróis hoje em dia e muitos de nossos políticos estavam entre eles, burlando a lei. José Dirceu participou do seqüestro de um embaixador americano(¹); Dilma Roussef era guerrilheira e afirma ter sido torturada(²); a lista de presos ou exilados contém inúmeras personalidades do País(³).

Quer dizer, por que nesse caso as pessoas são louvadas, enquanto FARC e MST são difamados constantemente na mídia? Se não são as leis, se não são os ideais, o que diferencia de verdade esses casos? E não digo só em termos da mídia, que acompanha o poder e também difamava quem lutava contra a Ditadura na época, mas em termos absolutos: como podemos discernir quem está certo nessas questões? O que é um parâmetro confiável? Será que nada feito por humanos merece tanta confiança? E se assim for, que devemos fazer: ignorar injustiças e sermos fiéis às leis vigentes, para não haver confusão ou ignorar as próprias leis e só nos basearmos nos ideais próprios?

3 de maio de 2008

Carta à criação

Aos incríveis seres que transformam estes sinais em pensamentos, exponho meus motivos:

De começo, fiz rodar no infinito o círculo perfeito em que as coisas aconteceriam, que vocês deram o nome pouco didático de tempo-espaço, expandido por matéria. Saibam: todos vocês entendem o que havia antes de, assim, surgir “tudo o que há”. É para o Universo assim como foi para cada um de vocês a eternidade que se passou antes de nascerem — nihil, nada. Como disse Stephen Hawking, que vocês devem conhecer, “perguntar o que veio antes do Big Bang é como perguntar o que existe ao sul do Pólo Sul”.

Com alguns cuidados básicos em fazer cargas, matéria que podia se unir de inúmeras formas possíveis e algumas forças além, tudo isso acabou dando certo. É evidente, porém, que não pensei em tudo isso na primeira tentativa. Foi um trabalho consideravelmente cansativo, com tentativas e pequenos acertos, algo como uma seleção natural de realidades — Universos — para enfim encontrar um resultado interessante. Entendam também que eu não tinha uma meta específica; isso seria fácil, eu posso criar qualquer coisa que imaginar — inclusive este é meu único “super-poder”. Não; fazer o que vocês são foi um projeto aleatório, e por isso mesmo desafiador. Sendo a única força exterior e podendo criar a bel-prazer, a única coisa que eu não conseguia era ver o acaso tirar de mim o peso da decisão. Saliento aqui que isso é apenas uma figura de linguagem para me entenderem; nada tenho com as sensações de vocês, que são apenas táticas evolutivas.

Assim, o tempo avançou: matéria se aglutinou, diferentes junções de cargas se espalharam por todo o espaço e, em seu planeta, começaram a se duplicar. O primeiro grande alerta que tive de meu sucesso foi o dia que sua espécie percebeu todo o processo que dera à luz vocês. É certo, existiram vários pensadores antes, mas suas conquistas eram subjetivas, pequenos fragmentos de verdade. A partir do momento em que compreenderam sua origem, vocês estavam aptos a compreender toda a vida. Era uma questão de tempo. Sobre a chamada seleção natural, é importante mencionar que nada tive com isso. Paradoxais criaturas vocês são; conseguem ver muito com tão pouco, mas não conseguem compreender metade do que vêem. Se dois seres lutam por recursos, um vence e assim faz mais réplicas de si, isso não é uma lei da natureza. Não é um capricho meu. Simplesmente é o que haveria de acontecer, não há segredo nisso. Como poderia a seleção natural não existir? É pura lógica, quem reproduz com mais aptidão vence. Equiparar isso com uma lei como a gravidade é quase um insulto.

Muito foi dito aí sobre mim. Desde o seu crescimento, sempre se especulou sobre meus afazeres e o que era mérito meu. Ora, nada aí dentro é meu. Toda a dança cósmica, qualquer evento que ocorreu ou ocorrerá é simplesmente baseado na natureza e nos seus efeitos quase aleatórios. A minha única participação é indireta, que foi dar início a tal. Dentre todos que falaram sobre a minha pessoa, ninguém sabia! Fui relegado simplesmente a respostas às melhores perguntas, a função de meu nome equivalia a “não sei”. Desnecessário então dizer que não se soube de mim nunca, e nem poderia ser sabido. O que seriam as orações e a fé, senão boas táticas para manter o equilíbrio mental?

Quanto à moral, nada tenho a dizer. Interessa-me muito ver do que vocês são capazes, prefiro seus loucos desvarios à pacata paz. Questões de bondade não me competem, todo o esforço por empatia e solidariedade que vejo em vocês depende só de sua própria vontade, se vocês as julgam tão importantes. Quem sabe provada minha não-interferência, vocês tenham mais sorte nessa busca, visto que as invocações de meu nome de nada serviram nesses longos anos.

Se nada que me interessa está fora do meu alcance, e já criei a aleatoriedade com vocês, seres que dominaram os fatos e agora comandam seu mundo, nada me resta a fazer. Tendo consciência do nada existente de fora, só cumpri meu único desejo em vocês, e agora tudo acaba. Deixarei de existir, e embora isso não faça diferença para vocês, os avisei. Todos os seus poetas sentiriam muito pressentindo eternamente que havia algo e eles nunca o souberam. A eternidade agora é de vocês, que são biólogos e podem entender a si mesmos. O passado foi meu, que fui apenas um físico ao criá-los e nada sei sobre a vida em si.



Do famigerado Deus.

21 de abril de 2008

Chomsky e o poder

Vez em quando, nos acontece algo que muda tudo. Algo que realmente transforma o modo como vemos as coisas e o mundo. É essa a impressão que nos deixa o lingüista e ativista político Noam Chomsky. Por influência de alguns livros de divulgação científica que sempre citavam Chomsky e também por uma matéria da Superinteressante entrei em contato com este gênio.

Chomsky revolucionou seu ramo de estudo, a lingüística, com sua gramática ge(ne)rativa transformacional, que usa matemática para explicar as línguas, mas não é sobre o cientista que quero falar (até porque eu não entendo nada de lingüística mesmo). É sobre o Chomsky militante. Nascido nos EUA, estudou em uma escola progressista onde podia seguir seus interesses, bem diferente de nossas escolas com prazos e regras. Aos 10 anos, escreveu um ensaio sobre a Guerra Civil Espanhola; aos doze já se identificava com ideais anárquicos.

Ao longo de sua vida — ele tem hoje 79 anos — escreveu vários livros sobre as estruturas do poder americano, suas estratégias imorais para manter o poder, o perigo
do neoliberalismo, o modo como a mídia controla as pessoas e outras questões. A princípio, podem lhe parecer coisas enfadonhas, como a mim teriam parecido antes de lê-lo, mas garanto a vocês que não são. A leitura das idéias e ideais de Chomsky nos atinge como tapas na cara, a simplicidade com que ele mostra toda a tirania por trás dos atos dos poderosos chega a ser irritante. Qualquer um que não quer ser uma peça no jogo das corporações dominantes que buscam lucros acima das pessoas deveria ler Chomsky.


No livro “Para entender o poder”, uma coletânea de palestras dadas pelo ativista foram selecionadas para apresentar seus principais argumentos, cobrindo desde os movimentos pelos direitos humanos dos anos 60, das ditaduras patrocinadas pela CIA por todo o mundo, até a falsa democracia americana e a mídia manipuladora. O livro certamente nos mostra que aquela imagem que temos ao estudar a História, de que antigamente o mundo girava pela cobiça e pelo dinheiro, sem se import
ar com as pessoas, na realidade pouco mudou. O que mudou, quem sabe, é o modo como isso é escondido de nós.

Além do mais, não conheço ninguém que tenha o lido e isso é altamente frustrante, por não poder conversar com ninguém, então eu estou emprestando para quem quiser. Como disse uma crítica do The Nation, “Nunca o ter lido é flertar com a verdadeira ignorância”.



12 de abril de 2008

Science easy as a 3,14 (π)

Quem entende a seleção natural? A teoria da relatividade geral? A mecânica quântica? Bom, com certa variação entre cada uma, podemos dizer que boa parte das pessoas não entende tais coisas — inclusive você que diz que o homem veio do macaco.*

Isso certamente não é estranho, não são coisas óbvias, é preciso ler para entendê-las. O que é estranho é que as pessoas não parecem querer entender. Mas os limites do conhecimento humano não interessam o povo em geral? Dificilmente. A ciência traz periodicamente avanços incríveis pra sociedade — coisas que realmente mudam nossa vida —, como a criação das máquinas a vapor que levaram à Revolução Industrial. (Vale comentar que na Grécia Antiga, antes de Cristo, já havia sido criado uma máquina a vapor, mas na época ela era desnecessária porque eles tinham escravos e não recebeu muito crédito.)
Essas evoluções do saber são interessantes. Muito interessantes. Aí que me arrisco a deduzir: as pessoas não tentam entender porque existe uma grande sensação de que são coisas elevadas, complicadas demais para o cidadão comum. As pessoas desistem.

Agora, o que se pode dizer tranqüilamente é que as pessoas não precisavam desistir. E isso porque existe um segmento da literatura dedicado especialmente a isso: divulgar a ciência de modo simples e claro para o leitor que não é especialista. No meio acadêmico, chamam isso de “divulgação científica” — Ok, isso foi uma piada — e grandes cientistas de vários ramos de conhecimento vêm se dedicando à tarefa. Se você tem interesse por astronomia, surgimento do Universo e afins, você pode ler Stephen Hawking ou Carl Sagan. Se você se interessa pelo surgimento da vida e outras questões da biologia, você pode ler livros de Stephen J. Gould e Richard Dawkins. Se quer entender a mente humana, pode ler Steven Pinker. A lista continua.

Além de livros, existem revistas de divulgação científica, como a SciAm Brasil ou a Superinteressante (embora quanto a essa haja controvérsias). Existem documentários muito bons sobre vários assuntos científicos, como os feitos pela BBC. Ou seja, hoje em dia podemos entender a ciência e perceber seus avanços mesmo sem diplomas. E por que não faríamos isso? Quem sabe boa parte das nossas dúvidas filosóficas já estejam resolvidas. Quem sabe perguntas que nunca nos fizemos tenham respostas incríveis. É a impressão que eu tenho. Descubra.



*A história de que o homem veio do macaco é um erro que surgiu da má explicação da seleção natural. O fato é que a nossa espécie e os macacos atuais tiveram um parente em comum, em um passado relativamente recente. Inclusive, pesquisas no DNA revelam que os macacos atuais mudaram mais que nós, ou seja, esse parente antigo parecia-se mais conosco que com os outros símios. Uma bela rasteira nos nossos egos, hein?

5 de abril de 2008

A tristeza de ser o Tonin A.

1995
Trim! Trim!
Tonin Álvares abriu os olhos, mas não sem antes abrir um largo sorriso. Eram 06:30 e era seu primeiro dia na escola “dos grandes” ― leia-se primeira série. Ele estava radiante. Após se arrumar e comer, recebeu o carinho dos pais na saída para o que ele considerava o maior dia da sua vida. Embora eles não conversassem, tinham a mesma preocupação em mente: o que as outras crianças pensariam de seu filho. Tonin A., como o chamavam para diferenciá-lo de seu pai, Sr. Tonin Resende, não era como os outros garotos. Eles não sabiam dizer bem o que se passava, ele se resignava com reclamações e castigos, não parecia importar-se com repressões e o que mais os preocupava, não ligava para o que ninguém falava dele.
Mas seu primeiro dia na escola passou bem, e vários outros juntos. Ou ao menos era o que pensavam os seus pais, até que receberam uma ligação da escola na segunda semana. Ao averiguar a situação:
― Desculpe, senhores, mas a escola, por motivos próprios, acha melhor a transferência do aluno para outra instituição.
― Mas por quê? Qual o problema?
― Entendam, seu filho parece não estar adaptando-se bem ao ambiente escolar. Nada de mais aconteceu, só estamos visando ao melhor interesse do seu filho.
(...)

― Doutor, diga: o que você descobriu?
― Veja bem, fiz boa parte dos testes possíveis, senhora, mas parece que seu filho está muito bem. Todos os níveis estão bons. Não tenho escolha a não ser afirmar que, se ele tem algo, é psicossomático e portanto deveria consultar um psiquiatra.
Tinha sido muito difícil para sua mãe levá-lo ao médico. Não só por ter de admitir que algo realmente se passava com seu filho, mas estar sem idéia alguma dos motivos disso. Nada aterroriza mais o ser humano que o desconhecido.
Quem não via problema nenhum nisso era Tonin. A própria idéia de ir ao médico o excitara, e ele estava muito alegre com a situação. Também estava se divertindo muito na nova escola e não entendia por que seus pais preocupavam-se.
(...)

1999
― Boa noite. ― disse o apresentador do jornal.
Tonin notou, com certa curiosidade, que seu pai não cumprimentou a televisão esta noite. Teve uma súbita vontade de rir, mas controlou esse sentimento. Ele estava em uma fase muito observadora, e já percebera que para ver o que havia de mais sincero nas pessoas, era preciso fazê-las esquecer da sua presença, por isso fingia-se invisível. Seu pai definitivamente estava perturbado com algo. Tonin continuou dando olhadelas furtivas para o pai vez em quando, alternando sua atenção entre seus estudos de antropólogo e seu dever de casa.
Havia já quatro anos que estudava em casa, pelo computador, e habituara-se a fazer seus deveres à noite, antes de dormir. Sua mãe temia que a falta de contato com professores fosse afetar o desempenho escolar de seu filho, mas sempre que o questionava, ele dizia estar muito contente com essa opção, e assim, ela se tranqüilizava, ainda que por pouco tempo.
Mas o garoto era esquisito. Seu pai sabia e sua mãe sabia. Eles viviam na eterna preocupação de não saber bem o que havia com ele, mas percebiam seus modos diferentes.
(...)

2004
Isabel batia à porta. Ao primeiro toque, Tonin sentiu um enorme júbilo; sua namorada estava chegando e seus pais tinham viajado. Ele tinha grandes expectativas para o dia. Mas a expressão da garota não era exatamente a que ele imaginava quando abriu a porta; ela estava chorando. Correu para dentro da casa e se jogou no sofá. Tonin A. sabia, é claro, que algo de ruim devia ter acontecido, mas isso não o aborreceu. Pelo contrário, o acontecimento o trouxe muita alegria. “Só preciso guardar isso pra mim”, pensou ele. E foi ter com a garota.
― How you doing? ― disse, aparentemente achando muita graça nisso.
A menina subitamente parou de chorar e levantou-se. Ela trazia uma expressão muito séria, que qualquer humano e alguns outros hominídeos poderiam reconhecer como raiva.
― Você é um babaca completo. ― Suas palavras soavam como tiros disparados em Tonin. ― Como você pode estar assim, alegre, fazendo graça quando eu entro aqui desesperada? Seu monstro!
Ele havia entregado o jogo muito facilmente. Por dentro, se recriminava duramente, e isso somado às duras palavras de sua garota, causava-lhe convulsões... de felicidade. E o fato de estar feliz a respeito disso, contrariando tudo o que ele conhecia sobre outras pessoas, principalmente as da televisão, poderia até ter o espantado no passado, e o deixado mais feliz ainda, mas hoje em dia ele já tinha aceitado isso e não pensava mais a respeito. Só sabia é que ela estava indo embora e nunca mais voltaria. Seu estômago deu uma reviravolta de pura satisfação.
(...)

2006
Por influência do pai, arranjara um bom emprego em uma fábrica de pregos e o salário ficava para si, uma vez que ainda morava na casa dos pais. Naquela manhã, recebeu uma ligação no telefone recém-instalado do seu cubículo cheio de câmeras para vigiar os trabalhadores da linha de produção.
― Filho, corra já para o hospital Hipócrates, sua mãe teve um acidente!
Tonin foi direto para lá. Encontrou a mãe embaixo de uma infinidade de fios, que a ligavam a inúmeras máquinas. Ela tinha cortado os pulsos e seu estado era grave. O rapaz, por estar em estado de choque, correu para dentro da sala, contrariando os médicos. A mulher, ao ser abraçada pelo filho, foi trazida de volta à consciência. Ela teve um instante de calma e paz, e quando tinha acreditado que tudo daria certo ― por alguma razão a música Imagine tinha vindo à sua mente ―, Tonin se afastou dela e ela olhou no fundo de seus olhos: ela nunca tinha visto uma expressão tão contente na vida. O choque foi grande demais para a mulher, que teve um infarto e morreu.
(...)

Tonin Resende nunca conseguiria perdoar o filho. Em assuntos assim emocionais, nunca ele pensaria do mesmo modo que pensava sobre o filho nas outras questões. Dessa vez, ele não daria um desconto ao rapaz. O rapaz não tinha problemas. Ele era mesmo um crápula. Tonin A. só esteve em casa uma vez após o incidente da mãe. Juntou algumas coisas, todo seu dinheiro e foi chutado para a rua pelo pai descontrolado. A situação poderia parecer ruim para ele, mas ela o levava a um estado de quase nirvana. O rapaz estava indescritivelmente bem.
Alguns meses após tais acontecimentos ― mas não pela expulsão de casa ou pela tentativa de suicídio da mãe, e sim por um filme ―, ele foi levado a ponderar sobre seus modos em relação à vida. Oh, a vida! A doce volúpia de viver. Como ele gostava de tudo isso. E foi por gostar tanto de tudo isso, que resolveu aceitar o conselho que já era senso-comum entre seus conhecidos. Foi a um psicólogo.
Fosse esse doutor competente, teria compreendido a magnitude do indivíduo que aconselhava e estudava, poderia ter escrito um artigo para revistas científicas e tornar-se famoso.
― Tanto o que é bom quanto o que é ruim te deixa feliz. Você só sabe sentir coisas boas. ― Porém, a única conquista do psicólogo foi ter dito essa frase pela primeira vez na história sem estar enganado ou usando-a como instrumento de retórica.
(...)

2026
Ao sair do elevador, sentiu o cheiro bom de comida, que logo o animou. Ao entrar em casa, porém, descobriu que a refeição era em outro apartamento. Encontrou a mulher deitada na cama, dormindo; resolveu não acordá-la. Raciocinando que o dinheiro do almoço era ele quem providenciava, vasculhou sua bolsa para almoçar fora, onde encontrou remédios para depressão. Naturalmente, Tonin A. não entendia por que as pessoas tomavam remédios contra a tristeza, mas sabia que precisava conversar com ela.
Quando voltou do almoço, encontrou-a de pé, muito agitada.
― Você andou vasculhando a minha bolsa? ― Ela tentava parecer irritada, mas estava na defensiva, pois sabia que o marido ia perguntar sobre os remédios.
― Querida, o que está acontecendo? Você está com depressão? ― Tonin queria ser compreensivo, estar com a mulher o deixava muito feliz e satisfeito. ― Por que você não me contou antes?
― Você não sabe... como é... ― De repente, estava ofegante. Percebia que chegara a hora em que ela poderia dizer tudo o que a incomodava há anos. ― Sua vida parece tão perfeita, tudo está sempre ótimo! A pressão que você põe nos outros! Minha vida nunca é boa o suficiente... ― Ela tentava conter o choro.
― Eu sinto muito, mas eu não tenho culpa de nada disso. Não escolhi ser abençoado de tal modo! ― O homem há muito tempo tinha aceitado sua condição e se tornara até muito orgulhoso dela. ― Nunca quis que isso lhe causasse algum sentimento ruim. ― Ele sorria muito e isso a deixava enojada, depois de tanto tempo convivendo de tal modo.
― Eu sei. Também eu não tenho culpa, mas saiba que os remédios me fazem bem, e assim estou bem. Não quero nenhum atrito entre a gente. ― A esposa, com toda a frieza calculista característica das mulheres, estava mentindo. Ela sabia que não poderia viver daquele jeito, mas não agüentaria uma discussão agora, vendo Tonin rir-se, muito alegre com tudo aquilo. Não, ela tomara sua decisão. Apaziguou a briga e o resto do dia correu tranqüilo. Dormiram juntos naquela noite.
Quando ele acordou, no meio da noite, por pesadelos terríveis ― embora muito prazerosos ―, estava sozinho na cama. Colado no espelho, uma pequena carta, podia-se até dizer que era só um aviso. “Desculpe-me Tonin, querido, mas é impossível viver assim, com alguém sempre alegre, independente da situação. A vida é feita de subidas e descidas, e sendo a sua sempre lá em cima, não tinha escolha senão estar sempre embaixo.”
Tonin A. leu aquilo extasiado. Por mais que soubesse que amava a mulher e não queria que ela fosse embora, não podia conter aquela felicidade transbordante em si. Naquele momento ele entendeu a sua vida. Realmente entendeu a situação dos que passaram por ele ― e todos passaram, ninguém restou. Sua alegria não contagiava os outros, ela os deixava miseráveis. Por mais que isso o trouxesse júbilo, ele decidiu que não ia deixar ninguém mais ficar mal por causa dele. Correu para a sacada, e com um profundo sentimento de satisfação, pulou. A queda lhe pareceu sublime. E também o encontro ao chão. Quem o conheceu sabe que, se estivesse vivo, ele teria dito que foi o momento mais feliz de sua feliz vida.

16 de março de 2008

Nosso futuro a longo prazo

Tudo começou quando... bom, não dá de dizer quando tudo começou, mas vamos partir dos escritos disponíveis para analisar as nossas mudanças e nosso rumo. A sociedade passou por várias grandes mudanças, revoluções que transformaram o modo como ela se ajeita. As principais dessas serviram de motivo para separarmos as eras: tomamos por exemplo a passagem para a Idade Contemporânea, marcada pela Revolução Francesa, que foi uma revolta do povo, que não estava contente com a situação que tinham. Meu ponto é esse: todas as revoltas acontecem porque alguém não está satisfeito, sempre a parte oprimida, o povo.

Nossa sociedade atual provavelmente é melhor para todas as pessoas, em média, do que as antigas, mas enquanto existir insatisfação, não estará em equilíbrio, isto é, sempre haverá a possibilidade de uma grande ruptura, uma nova mudança. Para quem está vivendo agora, pode parecer que já estamos em uma sociedade estável que poderia perdurar para sempre sem grandes mudanças, mas assim também deveriam pensar os gregos que tiveram séculos de paz (muito mais que a gente já conseguiu atualmente). Reviravoltas acontecerão sempre que parte das pessoas estiver insatisfeita.

Então como vai ser? Infinitos períodos de dominação e nova quebra? Existe outra possibilidade. Quem já leu Admirável Mundo Novo, imagina do que estou falando. Quem não leu, LEIA. Imagine uma sociedade qualquer (vou tentar não copiar a do livro) em que as pessoas são satisfeitas. Talvez existam classes sociais, talvez não, mas independente disso, as pessoas aceitam seus lugares. Isso poderia acontecer por dominação mental, como forte propaganda convincente, alguma espécie de lavagem cerebral. Essa é a principal chave para o equilíbrio sustentável da sociedade. Talvez as pessoas tenham que trabalhar, talvez não. Os detalhes podem variar, só é preciso, de algum modo, estacionar as coisas. A ciência poderia parar, livros não mais seriam escritos, não seria necessário ter conhecimento histórico nem medições do tempo. A sociedade seria atemporal e, assim, infinita. Alcançando esse estágio, aí ficaríamos para toda a eternidade, até quem sabe o dia em que o planeta encontre seu fim.

A princípio, pensamos “por que isso aconteceria?”. Mas imagine a sociedade como um indivíduo se propagando através dos anos, cada reviravolta sendo uma mutação genética. Já que as revoluções acontecerão sempre que parte das pessoas estiver insatisfeita, elas acontecerão para sempre, só parando se atingirmos a sociedade equilibrada de que falei. Pode parecer muito improvável, mas como o surgimento da vida complexa, terá tanto tempo para sofrer mutações que uma hora resultará no produto final, nesse caso, a sociedade atemporal infinita.

Isso pode demorar milênios, ou quem sabe apenas 100 anos. Não temos como saber. Devemos é aproveitar a imperfeição da nossa vida. O sofrimento nos torna humanos, nos dá a liberdade de decidir. Quando estivermos eternamente felizes, não teremos mais decisões, ficaremos parados. Teremos nos passado a perna, acabado com nosso próprio livre-arbítrio.